quinta-feira, 23 de junho de 2011

Capítulo 8 - Sem tempo para tristeza

   O caos era total: As balas zuniam enquanto penetravam a carroceria do ônibus. Pessoas se jogavam, desesperadas, em busca de proteção. Pulei para o chão, procurando por alguma cobertura contra os disparos. Eu estava surdo, enxergando a cena toda acontecendo em um silêncio profundo.
   De repente, sou jogado para o lado esquerdo do ônibus. Com uma curva brusca, havíamos saído da estrada. Henrique e Lucas continuavam a atirar pelas janelas contra os carros que apenas se afastavam pela pista. Nosso ônibus acelerava matagal adentro, sem direção.
  O som voltava, aos poucos. Eu sentia o vento soprando em meu peito, enquanto só conseguia ver a agitação das pessoas por dentro do ônibus. Agora eu conseguía distinguir as vozes, os gritos.
-... Morreu! Ricardo está morto! – Henrique berrava ao lado do motorista morto, pendurado em sua cadeira. Ele tentava controlar a direção. Era tarde: Com um forte solavanco, o ônibus tombou para o lado e capotou. Tudo girava ao meu redor.
   Violentamente, eu era atirado contra o interior do veículo, arremessado em várias direções. Objetos e corpos voavam por dentro do veículo. Ouço então um disparo. Dessa vez, vinha por dentro. Uma das laterais estava toda manchada de sangue. Uma mulher grita.
   Tão rápido como começou, a movimentação acaba. Batido numa árvore, o ônibus havia parado de se mover. Notei que o veículo estava de lado quando me ví deitado em cima de uma janela rachada, sobre o capim do exterior.
   Por alguns momentos, tudo permaneceu silencioso e confuso. Ví o segurança negro levantar-se com dificuldade e começar a conduzir os sobreviventes para fora do veículo tombado.
-Por aqui. - Dizia ele, gesticulando a porta de entrada, que agora estava acima de sua cabeça. -Cuidado onde pisam. -
   Pessoas gritavam e gemiam de dor. Fios estavam pendurados, pessoas presas na carroceria, entre os escombros do acidente. Eu estava tonto, com a visão turva. Procurei por minha mãe, que encontrei ainda sentada em nosso assento, presa pelo cinto de segurança. Cutuquei-a com alguma força. Sem resposta, tentei novamente: Nada.
-Mãe?! – Gritei. – Mãe?! – Eu estava entrando em desespero. Virei então o seu rosto para mim. Havia um enorme buraco de bala em sua têmpora direita. Passei minha mão na lateral de meu rosto, lembrando-me do líquido que sentira anteriormente. Agora já estava frio. Minha palma voltou em vermelho vivo. Era sangue. Sangue de minha mãe. Meus olhos se arregalarem ao perceber a verdade, senti um calafrio percorrer minha espinha.
-Nããão!
   Dei uma berro de angústia e raiva, enquanto caía ajoelhado  sobre o chão. As lágrimas desciam pelo meu rosto, misturando-se ao sangue e ao suor. Lembrei-me de todas as esperanças sobre nossa salvação, lembrei de todos os sonhos que eu ainda tinha. Eram mentiras. Escondí o rosto com as mãos e desabei em um choro constante. Lá estava ela, sem vida. Em meus braços.
-Matheus... Você está bem? – Era Lucas, o meu amigo. Eu não conseguia sequer levantar o olhar até ele.
-Vai embora daqui. - Respondí-o com raiva.
  Lucas me estendeu o braço para que eu me levantasse. Por alguns momentos, olhei para ele apreensivo.
–Vem comigo, cara. - Ele disse, tentando se mostrar compreensivo. Abriu os braços, como que pedindo por um abraço. Empurrei-o para longe sem dizer uma palavra, enquanto eu me levantava. Lucas olhou para mim fixamente.
   De pé, olhei para o corpo de minha mãe. Eu o tinha ajeitado perfeitamente no banco, de modo que ela parecesse dormir. Porém logo ao olhar para Rosana, meu rosto se contorceu em dor mais uma vez. Virei de costas antes que começasse a chorar mais uma vez. Lucas ainda me encarava, parecia querer me dizer alguma coisa.


- O João ta por aqui, também... –Ele dizia, enquanto me guiava por dentro do ônibus.
-João? Quem é João?! – Eu perguntei nervoso, limpando as lágrimas da minha face.
-João... Um amigo meu. Ele veio comigo.
-Não estou muito disposto a conhecer amigos novos agora. – Me exaltei, irritado por não ter sido avisado de nada.
-Mas cara! – Lucas chamou, vendo que eu tinha acelerado o , olhando-me fixamente. Tentei pensar em qualquer motivo que justificasse a minha raiva, mas nada me vinha em mente.
-Esquece. – Eu disse. Lucas deu uma pequena corrida até a última fileira de assentos, onde um garoto um pouco mais novo que eu estava caído, com um corte no supercílio. Tinha um quê de asiático, os olhos puxados. Notei que estava meio fora de forma também.
-Vamos tirar ele daqui. – Lucas me falou. Com alguma dificuldade, arrastamos o rapaz até a por todo o interior do ônibus. Dei minha última olhada em Rosana e então saímos, passando pela pequena portinhola do ônibus, completamente destruída. Restava uma pequena aglomeração de sobreviventes, eram cerca de vinte pessoas, sem contar comigo e meu amigo. O segurança Lucas carregava duas armas em suas mãos. A escopeta calibre doze e o fuzil FAL de Henrique. Nesse ponto, eu já sabia o que havia acontecido.
   Os passageiros agora tentavam arrumar as suas coisas, retirá-las do veículo capotado. Muitos gritavam por respostas. O caos era completo, e o segurança não sabia como agir. Ergueu sua escopeta e deu um tiro para o alto. Todos se calaram.
-Um de cada vez. – Ele começou. – Alguém tem perguntas? - Uma mulher levantou a mão ao fundo.
- O que aconteceu aqui, exatamente? Por que aqueles carros atiraram na gente? – Ela perguntou apoiada por gritos e manifestos. Lucas pediu silêncio mais uma vez.
-Olhe minha senhora... Ainda não sabemos exatamente o que houve, mas no meio da troca de tiros o nosso motorista, Ricardo, foi atingido na cabeça. Ele, a propósito, era um grande amigo meu e do Henrique, que também morreu. – Fez-se um silêncio incômodo, até que um homem, mais a frente, se manifestou.
- E quem deu o tiro dentro do ônibus?
-O tiro saiu desta arma, se é o que quer saber. – Respondeu Lucas, erguendo sua escopeta mais uma vez.
-Não foi isso o que perguntei. Quem deu o tiro? – O homem insistiu.
-Ninguém deu o tiro. – Lucas suspirou. – No meio da confusão, essa arma se soltou da minha mão e disparou sozinha. Enquanto chacoalhava de um lado para o outro.
-Isso não foi falta de competência da sua parte, meu jovem? – Perguntou uma idosa. Lucas deu alguns passos para trás, sentindo-se afrontado.
-Escutem aqui: Eu não preciso dar nenhuma satisfação a nenhum de vocês! Vocês acham que é fácil saber que o tiro cujo matou seu melhor amigo veio da sua própria arma?! Saibam que não é. Agora vão arrumar o que fazer, todos vocês! – Lucas se afastou e sentou num canto isolado, virado para o horizonte. Notei que estávamos em uma enorme zona rural.
  
   Isolei-me um pouco mais do resto do grupo e me sentei na relva. Era necessário algum tempo para pensar em tudo o que vinha acontecendo. Minha mãe agora estava morta, eu estava sem nenhum responsável por mim. As decisões agora eram unicamente minhas, e ao mesmo tempo em que isso me acalmava, também era apavorante.
   Eu observava, sentindo uma pequena pontada de alegria, o adorável vôo dos pássaros naquele céu azul de início de tarde. Uma brisa aconchegante refrescava aos poucos minha mente. Porém eu ainda podia sentir lágrimas descendo pelo meu rosto. E o pior: Minha barriga estava roncando.
   No meio do nada, e agora? Eu perguntava para mim mesmo. Lembrei do estoque de comida e água que eu esquecera naquela loja de roupas. Aquilo sim era falta de competência. Respirei fundo, era hora de fazer algo, antes que fosse tarde.
-Matheus! – Tomei um susto ao perceber que meu amigo Lucas estava atrás de mim, junto de seu colega, agora acordado. –Esse é o João. – Ele disse.
-Acho que já o conheço. – Respondí, com um sorriso.
-Eu sei, era ele que não conhecia você. – João deu um passo à frente e me cumprimentou com um aperto de mão.
-Valeu por me tirar de lá. – Ele disse. Acenei com a cabeça e voltei a minha reflexão. Eu não estava a fim de fazer nada.Estranhamente, os dois sentaram-se ao meu lado e mergulharam no mesmo tédio que eu estava.
-A propósito, sua cara tá suja. - Avisou Lucas, indicando com o dedo a grande mancha vermelha que cobria meu rosto.  Usei meu casaco para então limpar o sangue de minha mãe. Era difícil, o líquido já seco se descascava aos poucos, descolando-se lentamente da minha pele.
   Passamos alguns momentos em silêncio. Todos estavam sentados ao meu lado, observando o horizonte. Ninguém parecia querer dizer nada no momento. O tédio era algo que não nos importava mais.
-Que legal!- Lucas gritava contente. –Todo mundo fazendo nada junto! –
   Damos algumas risadas entre nós, mas logo voltamos ao clima de tristeza anterior. Ninguém falou nada por algum tempo, apenas sentiam a brisa, assim como eu.
- Tá tudo uma merda mesmo. – João disse. – Eu sempre achei que seria legal um mundo de zumbis. Mas graças a esses viados... – Respirou profundamente. – Minha familia toda morreu. –
   Olhei para ele com empatia, eu sabia como ele estava se sentindo. Dei leves tapas em suas costas.
-Somos dois, amigo. –

[...]
   O dia começava a escurecer, foi um período longo no sol escaldante. Um fedor humano se espalhava pelo acampamento. Não era por menos, eu mesmo, estava há quase um dia inteiro sem tomar banho. Lucas, com a ajuda dos passageiros, havia tirado os cadáveres de dentro do ônibus, para que pudéssemos passar a noite lá.
   Montaram uma cabana do outro lado da clareira para os suprimentos. Ao centro, havia uma fogueira que alguns homens tentariam acender mais tarde. Havia uma cobertura de toldo que se estendia alguns metros após a entrada do ônibus, para proteger contra uma possível chuva.
   A escuridão caía novamente, envolvendo o ambiente em um clima sombrio. O vento noturno uivava, balançando a relva verdejante. Meus amigos já haviam se recolhido ao acampamento, para descansar. Eu estava deitado no gramado, observando a fogueira de longe. Observei Lucas se aproximar, com suas duas armas.
- Hey, você. – Ele me chamou. – Aproveitando que está aí de bobeira, você vai fazer a vigia noturna comigo. – Abafei uma pequena risada. Logo eu? Mas estava tudo bem. De qualquer forma, não estava com sono. Lucas me lançou a escopeta.
-Não é difícil, não. É só me seguir. Vambora. – Ele começou a andar pelo enorme campo. Eu acompanhava-o sem dizer uma palavra. Ainda estava analisando a arma que me foi dada. Será que tinha munição? Eu me distraía nos meus pensamentos ao pensar em quantas vidas aquela escopeta havia tirado. Ou semi-vidas. Lucas parou e apalpou a parte de trás de sua camiseta, na altura da cintura. Tirou do short a faca que eu o havia entregado no ônibus.

-Pode ficar com isso também. - Com um sorriso, tomei de volta a minha faca.
   Andamos uma longa distância, até eu perceber que estávamos simplesmente andando em círculos ao redor do acampamento. Ficou claro para mim que estávamos apenas montando um perímetro de segurança. A noite agora se mostrava incrivelmente fria. Eu mal sentia minhas mãos e pés.
-Você não precisa ficar quieto. – Lucas se manifestou.
-Não é isso... – Respondí ainda distraído. – Eu só não tenho o que falar. –
-Hoje vai ser uma noite calma. – Lucas parou frente a uma pilha de troncos cortados. – Acho que podemos ficar por aqui mesmo. – Disse sentando-se sobre uma tora. Eu permanecí de pé, observando-o.
- Por que matou o motorista daquele outro ônibus? – Perguntei.
-Ah... Aquilo... – Lucas parecia mostrar certo desgosto em falar sobre aquilo. – Ele não era o verdadeiro motorista. Na verdade ele tinha matado o original. O que aconteceu no Bravo 1 foi um motim. Porém, para evitar esse tipo de atitude, apenas os motoristas sabem os pontos de reabastecimento. E isso levou ao problema com o ônibus. As regras eram que qualquer autor de um motim devia ser executado. E foi o que eu fiz. Regras são regras.

-Como vamos sair daqui? – Continuei. – Alguém já te perguntou isso?
-Foi a primeira coisa que me perguntaram. Fica tranquilo que amanhã, pela noite, outro ônibus de mesma rota estará passando por aqui. –
-Então no máximo amanhã já estaremos no caminho da segurança, de novo?
-É... – Ele fez uma pequena pausa. – Eu espero que sim. Mas estou com sede, e imagino que você também esteja.
-Sim.
-Então... No acampamento tem uma caixa de madeira mais afastada do ônibus, do outro lado da fogueira. Tem água e amendoim lá. Traz lá pra gente. – Disse com uma piscadela. Sem pensar duas vezes, fui em direção ao acampamento. A luz da fogueira, agora já acesa, ficava cada vez mais forte conforme eu me aproximava.
   Abrí a caixa de madeira. Inúmeras garrafas d’agua jogadas por dentro dela. Não era uma caixa térmica, portanto toda a água estava quente. Mas quem ligaria para isso? Peguei duas garrafas pequenas e alguns sacos de amendoim. Sem demorar muito, eu estava voltando.
   Eu havia perdido Lucas de vista. Aproximei-me com cuidado pela escuridão que tomava a noite. Pensei que tudo se tratava de uma brincadeira de mau gosto, até avistá-lo de joelhos, rendido por um homem armado. Eu me abaixei e continuei me aproximando por trás dos troncos cortados. Eles ainda não tinham me visto.
- A gente só quer as armas, mano. Onde ta a escopeta? – O homem perguntava, estrangulando Lucas. Era alto, loiro de cabelo liso. Aparentava ser alguns poucos anos mais velho que eu. Tinha algemado o segurança com as mãos para trás e de joelhos sobre a grama. Tentei uma aproximação maior. Dei alguns pequenos passos em direção ao homem. Eu sabia que aquilo não daria certo.

domingo, 12 de junho de 2011

Capítulo 7 - Desilusão

   Estava frio. Uma brisa congelante dominava as ruas por onde o veículo circulava. O ônibus dava pequenos solavancos , enquanto o motorista tentava desviar de todos os tipos de obstáculo. Haviam me informado que ainda daríamos mais algumas voltas pelo local procurando por sobreviventes antes que pudéssemos de fato sair da cidade.
   Era um ônibus comum, com nenhuma modificação em seu interior. Todos os passageiros permaneciam acordados, devido à preocupação constante de qualquer acidente. Coloquei os braços atrás da cabeça e relaxei um pouco. Afinal, estávamos em uma evacuação. Logo eu estaria livre daquele inferno. Assim, olhei em volta, mais tranquilo.
   Eu evitava olhar pela janela, mas precisava da realidade. As ruas por onde passávamos estavam completamente devastadas. O asfalto se pintava em sangue seco. Não havia sinal de vida humana. Urubus se alimentavam dos corpos dilacerados na calçada. Haviam cadáveres em decomposição avançada, outros com marcas de tiros na cabeça. Os desmortos estavam mais raros de ser ver. Como uam maldita praga, eles avançavam pelas cidades, deixando para trás uma trilha de morte. Carros abandonados lotavam a pista, e o motorista se esforçava para conseguir passar. As viaturas policiais, agora já vazias, continuavam com suas sirenes a tocar. A situação era mesmo caótica. Eu me pegava pensando em Renan cada vez mais. Estaria vivo? Será que conseguiu encontrar seus pais? Eram perguntas que eu me negava a resposta.
   Lucas, o homem que eu conhecera anteriormente, fazia a guarda do transporte junto de outro rapaz, que aparentava ser mais novo. Sendo os únicos com o poder de armas de fogo, eles permaneciam em alerta, sentados como passageiros comuns, olhando para o lado de fora. O mais jovem e alto deles, que posteriormente se apresentara como Henrique, possuía um fuzil de guerra FAL. Pelo que eu podia me lembrar, aquela arma não era liberada para civis. Porém as coisas estavam mudando, e ninguém parecia se importar demais com a lei.
-Mãe, trouxe alguma coberta aí? – Perguntei. Rosana enfiou a mão em uma das malas, e não demorou a tirar de lá um casaco verde, que eu tinha há cerca de seis meses. Sem demoras, eu aceitei, gratificado.
-Usa isso aí mesmo. Não deu para colocar muita coisa na mala, então a gente vai ter que se virar com o que eu... Ai! - Interrompeu a sua fala. - Nossa senhora, isso aqui tá doendo pra caramba!- Ela disse enquanto olhava para o próprio braço esquerdo. Uma ferida enorme se destacava no antebraço, próximo ao seu cutovelo.
-Merda! Você... – Controlei a minha voz. Todos no ônibus já me olhavam assustados. – Você foi mordida? – Perguntei atônito. Eu não tinha como esconder a minha preocupação.
-Sim, foi naquela hora, na loja. Aquela vaca me agarrou. Mas está tudo bem... – Ela analisou o próprio ferimento. – Foi apenas um corte superficial. –
   Lembrei-me de todos os filmes que já havia visto até então. Eu tentava dizer qualquer coisa que pudesse acalmar Rosana, porém seriam apenas mentiras. Pelo que me vinha à mente, não era nada bom ser mordido. Eu não poderia simplesmente iludir a minha mãe. Antes que pudesse dizer algo ainda mais desanimador, decidí manter-me em silêncio, para evitar piores situações.
   Olhando pela janela, eu conseguía ver vultos se mexendo. Era impossível distinguir raça ou sexo. Se eles estavam infectados ou não, eu não tinha forma alguma de saber. Eram cerca de três pessoas, correndo por um beco escuro, silenciosamente. Pensei ver capuzes negros encobrindo suas faces, enquanto esvoaçavam ao vento. Foi a única coisa que pude ver, antes que o ônibus passasse pelo local. Tive a impressão de que brevemente iria me encontrar com aquelas pessoas.
   Com minha mãe sentada à janela, eu me contentava em observar o que conseguía à distância. Inclinado para frente, vía o vidro embaçando aos poucos por causa de minha própria respiração. Eu sentía o cansaço batendo novamente, e minhas pálpebras começavam a tombar.
Descí pelas escadas do edifício, grato por mais uma aula. Era uma arte marcial desenvolvida recentemente por Renato. Ele tinha três alunos: Eu, meu amigo Renan e uma menina que nunca cheguei a conhecer. Tudo me lembrava um pouco Krav Magá, ainda mais porque as coisas eram desenvolvidas como que para lembrar a guerra em si.
- Vai vir semana que vem?- Perguntou-me Renan, me abordando no lobby.
-Alguma aula especial? Porque eu terei...
-Arremesso de facas. Não vejo a hora de compararmos as nossas habilidades, cara. – Ele me interrompeu. Fitei-o por alguns instantes: Renan realmente tentava provar que era melhor do que eu. Sempre teve esta horrível mania.
-Nos vemos semana que vem, então. – Eu confirmei. Ele acenou com a cabeça e seguiu em direção ao portão do prédio. Retornei todo o meu caminho: Eu ainda precisava conversar com Renato. “
   Com uma brusca parada, acordei. Minha cabeça tinha batido no banco da frente, uma leve dor na testa me mantinha em alerta. O sol estava nascendo, agora. Passávamos por um grande campo aberto no meio da cidade. Onde estávamos?
-Pro chão! – Gritou Lucas, enquanto engatilhava sua arma. Ouví disparos que vinham de toda a parte, e estavam próximos. Logo balas traçantes voavam por todo o lado. Todos os passageiros se jogaram sobre a estreita passagem do ônibus.
  Haviam inúmeras barricadas improvisadas por onde soldados e civis passavam. Infectados corriam atrás de suas presas, em meio aquela zona.

   No meio da multidão, uma mulher carregava sua pequena filha no colo, correndo por sua vida. Os militares estavam ocupados demais protegendo a própria posição. Sem nada a fazer, assistí os malditos zumbis alcançando-a. A mulher lançou sua criança alguns metros a frente, tentando salvá-la. Os desmortos começavam a arrancar cada pedaço de sua carne, enquanto a mulher gritava desesperadamente. O sangue jorrava para todos os lados, numa carnificina tremenda. Em choque, a pequena criança apenas assistía a tudo, sem sair do lugar. Curioso, um dos infectados olhou para a menina de pé. Ele tinha um grande pedaço do rosto pendurado, era possível ver seus dentes por aquele buraco. Nesse momento, a menina gritou e correu, mas já era tarde. Logo outros três zumbis já estavam em cima dela.
  Os tiros não cessavam, balas atravessavam o ônibus de um lado a outro como se fosse papel. O som dos projéteis perpassando o metal era apavorante.
   Joguei-me ao chão. Lucas e Henrique disparavam pelas janelas enquanto o ônibus acelerava por entre a confusão. Balas penetravam a carroceria, perfurando as paredes, estilhaçando janelas. Algumas pessoas gritavam assustadas. Eu podia ouvir o chiado dos projéteis cortando o ar.
-Vai! – Lucas gritou para o motorista, enquanto recarregava a sua arma.
   Depois de alguns minutos, havíamos passado pela zona de guerra. Todos voltavam aos seus assentos. Eu podía ver pequenos buracos na carroceria do veículo.
- Que porra foi essa?! – Eu perguntei, irritado. Todos os olhares se voltavam para mim, agora.
-Eles estão tentando controlar a infecção. – Dizia Henrique. -O exército foi acionado há poucas horas. Tem trincheiras espalhadas por toda a cidade. Nós passamos por cima de uma agora há pouco. – Ele dizia, enquanto tomava um gole d’água.
   Procurei com as mãos por minha sacola plástica.
-Droga!
-Que foi? – Minha mãe perguntou surpresa.
-Perdí a minha sacola de suprimentos! – Eu respondí, ainda sem acreditar em meu erro. – Devo ter esquecido enquanto fugia da loja. – Minha mãe me olhou apreensiva.
-É... Agora não tem jeito, filho.
-Toma, pode beber da minha, garoto. – Henrique me estendeu uma garrafa repleta de água.
   Bebí um pouco e devolví a ele, agradecido. Ajeitei-me no banco em que estava. Eu me sentía calmo por saber que tudo isso estava acabando. Nós iríamos sair da cidade e fim da história. Esperaríamos pelo controle da situação para podermos voltar então às nossas vidas rotineiras. Porém voltei à realidade quando pude ouvir, entre chiados, o rádio do motorista.
-Controle para Ômega B, Controle para Ômega B... Na escuta? – O homem perguntava, calmamente. Assistí o motorista pegar seu rádio para respondê-lo.
-Na escuta.
-O Bravo um se desviou da rota. Precisamos que vocês se assegurem de que está tudo certo. A última posição conhecida é na Linha Amarela, na altura do pedágio.
-Estamos longe. – Afirmou o motorista.
-Apenas salvem eles. A minha filha está naquele ônibus. – Disse a voz masculina, agora já não tão calma. –Câmbio e desligo.
-Henrique, mudança de planos! – Gritou o motorista.
   O segurança apenas acenou com a cabeça, em sinal positivo. Na próxima curva, já pegávamos o sentido contrário. Estávamos voltando. Olhei para minha mãe, ela dormia. Porém estava quente, muito quente. Uma febre tremenda. Pude ver o suor escorrendo pela sua testa. Algo não estava certo.
   Não se passou mais de uma hora até que chegássemos ao local indicado. Era possível ver um ônibus parado, todos os seus passageiros do lado de fora. Sentados na divisória da pista. Paramos ao seu lado e a porta de nosso ônibus se abriu. Desceram os dois seguranças.
   Assistí pela janela o que pareceu ser um longo diálogo entre eles e o motorista do outro veículo. Logo a conversa ficou mais intensa, e virou uma discussão. Eu não podía ouvir o que falavam, mas pela linguagem corporal dos dois, não era algo agradável.
   Henrique se afastou um pouco mais e acenou para que os passageiros entrassem. Um a um, eles adentraram o ônibus. Reconhecí um deles como um garoto chamado Lucas, era do meu colégio.
   Era de cor branca, cabelo preto: curto e encaracolado. Usava um óculos de grau e era um pouco mais alto que eu.
-Matheus! – Gritou. E eu pensando que ele não tinha me visto.
-Calma, cara. Minha mãe ta dormindo. – Avisei.
-Foi mal, mas fala aí! Achei que só eu tinha sobrevivido, cara. – Ele dizia alegre. –Levanta aí! Não vai me dar um abraço? –
   Olhei para ele durante alguns segundos, sem me mover. Lembrei de nossa escola, há cerca de sete anos atrás, quando brincávamos de pique. Lucas era uma das pessoas mais velozes da turma, assim como eu e o Renan. Eu hesitava em conversar com ele, em confiar em alguém. Sentía vontade de matá-lo agora mesmo para não precisar vê-lo morrendo depois, como aconteceu com o Luís.
-Cadê a sua família? – Perguntei.
-Eu... Eu não sei, cara. – Ele respondeu cabisbaixo. – Mas deixaram um bilhete para mim, dizendo que viajaram para Petrópolis. Então eu imagino que eles tenham escapado de toda essa história a tempo. –
   De repente, um estrondo ecoa pelo local. Olhei pela janela: Um dos seguranças havia atirado no homem. Seu corpo jazia inerte no chão. Colocando a escopeta sobre o ombro, entrava agora pela porta do ônibus.
-Todos prontos? Vambora daqui. Precisamos nos apressar. – Ele disse.
   Lucas, o meu amigo de escola, sentou-se no banco atrás de mim. Ele permaneceu quieto por muito tempo, até que decidiu conversar comigo. Papeamos por vários minutos, até que o segurança se aproximou.
-Meu xará? – Perguntou para mim, com um sorriso no rosto.
-Se o seu nome também for Lucas, sim. Somos xarás. – Respondeu o meu amigo.
-Há! – O homem soltou uma gargalhada, enquanto se cumprimentavam.
   Olhando pela janela, assistí apreensivo a aproximação de duas vans pretas pela lateral do ônibus. Uma de cada lado. Ficaram novamente claras as iniciais “CCAB” em suas portas. Pude ver suas janelas elétricas abrindo-se lentamente. Um pequeno objeto negro se estendia para fora do veículo. Quando identifiquei as armas, já era tarde.
-Pro chão! – Gritava Henrique. Estampidos me deixaram surdo, temporariamente. As balas entravam, destroçando o carro. Os veículos aceleravam pela lateral buscando uma maior área de destruição. Sentí um líquido quente espirrando do lado esquerdo de meu rosto.

domingo, 5 de junho de 2011

Capitulo 6 - Finalmente em segurança

   A multidão de infectados agora desejava o ônibus. Aqueles demônios deviam ver tudo como um verdadeiro banquete dentro de uma embalagem. O motorista parecia ainda não ter nos visto, e os zumbis estavam entre o veículo e nós. Era uma situação realmente muito difícil.
-Aqui! – Minha mãe gritou abrindo a porta da frente. Nesse momento eu pude ver três desmortos correndo em nossa direção. Puxei-a para dentro e tentei fechar a porta. Era tarde: Eles haviam entrado.
   Os zumbis urravam e mancavam enquanto invadiam a loja sem hesitação alguma. Rosana gritava histericamente, recostada na parede atrás de mim.
   Saquei as minhas facas e esperei uma maior aproximação de algum deles. Eram dois homens e uma mulher. Eu me preparava para o combate mais perigoso de minha vida.
-Mãe, sai daqui. Tem uma porta aos fundos. – Falei em voz alta, sem desviar a minha atenção dos inimigos a frente.
-A gente ainda precisa acordar o Renan! Cadê ele, afinal? – Senti um calafrio percorrer o meu corpo. Não era um bom momento para discutir. Naquele instante, um zumbi saltou em minha direção, me pressionando contra a parede.
-Sai daqui, mãe! – Gritei com toda a minha vontade. Rosana pegava a caixa registradora para atirar em meu atacante quando outra infectada conseguiu alcançá-la, derrubando-a.
   Eu tentava manter a boca do indivíduo distante de mim, mas ele era determinado. Com um movimento rápido, consegui jogá-lo para a esquerda, arremessando-o. Seu corpo voou rumo a parte superior do balcão. Bateu e caiu do outro lado, arrastando inúmeros objetos consigo. Foi bem a tempo de ver o segundo homem se aproximar correndo. Mirei na lateral de sua cabeça. Ajeitei meu corpo numa posição mais favorável ao golpe. Foi então que decidí atacar: Girei meu braço com força e velocidade, fincando uma das facas na têmpora do infectado: Morte instantânea. Sentí, com repulsa, os respingos de seu sangue sobre meu rosto.
   Olhei em volta: O primeiro zumbi a me atacar agora já se levantava. Minha mãe gritava de dor e agonia enquanto era atacada pela desmorta. Puxei a infectada pelas costas e a joguei no chão. Rosana já se adiantava para longe dali, abrindo a porta dos fundos. –Finalmente – Pensei.
   Segurei com vontade a minha segunda e última faca: Era a minha preferida. Agora restavam apenas eu e os zumbis, que entravam sem parar. Olhei para a lâmina ainda brilhante. Eu podia sentir a adrenalina pulsando em minhas veias, tudo parecia estar em câmera lenta. Os bastardos entravam mancando e se arrastando pelas paredes até então limpas.
  Um profundo sentimento de ódio me possuía. Antes que pudessem se aproximar, eu estava correndo para cima deles. Por alguns instantes me confundí com um deles: Correndo como uma besta para cima do perigo, sem medo da morte.
   Tomado por instintos de batalha, matei o primeiro deles encravando-lhe a faca em um de seus olhos. Com dificuldade, retirei a lâmina com cuidado, no momento em que estava sendo atacado por uma criança infectada. Conseguí tirá-la do caminho com um chute certeiro na altura de seu peito. Me embrenhei entre as dúzias de monstros, matando alguns deles. Logo eu estava cercado, numa situação que ameaçava a minha sobrevivência. De fato, não era uma boa estratégia ficar por ali. Voltei-me para a porta dos fundos, porém logo percebí que era impossível de se passar: Mais zumbis adentravam o local por lá.

-Fudeu – Pensei alto. Procurei com o olhar por outra saída. Uma porta branca atrás da sessão de roupas íntimas parecia ser a melhor opção de fuga. Corri com esperança na sua direção. Minha visão estava embaçada, a respiração ofegante. Saltei e driblei por entre os obstáculos da loja: A porta estava trancada. Atrás de mim havia uma aglomeração incontável de infectados que apenas se aproximavam.
   Pela janela, eu podia ver o ônibus parado tentando perpassar a grande multidão de zumbis que o cercava também. Não estava muito longe da loja. Focando minha atenção na porta, decidí tentar arrombá-la.  Joguei o meu corpo contra a madeira. Da primeira vez, nada aconteceu. Tentei de novo e de novo: O mesmo resultado.
  Derrubei uma prateleira inteira de calçados entre eu e a horda de zumbis, tentando ganhar tempo. Foi então que avistei a caixa registradora. Peguei-a e batí-a na maçaneta, destroçando o mecanismo de abertura. Efetuei mais alguns golpes até que pudesse abrir a porta.
   Havia uma escada não muito grande levando a um andar superior. Sem pensar muito, me adiantei pelos degraus e abrí a porta. Fui envolvido por uma brisa fria e aconchegante. Senti o ar puro da noite adentrar os meus pulmões: Eu chegara ao terraço.
   Ouví disparos próximos a mim, que me deixaram temporariamente surdo. Os passageiros do ônibus atiravam pelas janelas com suas armas de fogo. Debruçado no parapeito, comecei a avaliar a distância e altura do meu salto até o veículo. Porém alguns berros vindos de trás me chamaram a atenção. Havia pelo menos dois desmortos subindo a escada. Sem pensar em mais nada, eu pulei.
   Com um baque surdo, aterrissei duramente sobre a carroceria, deslizei um pouco para o lado até conseguir me estabilizar por completo. Ví que havia uma pequena abertura na parte superior do ônibus, como uma saída de emergência. Rastejei até lá com cuidado para não cair: Uma doze apontada para meu rosto. Só deu tempo de tirar a cabeça da direção das balas. Logo pude ouvir repetidos disparos. Entrei em pânico antes mesmo de notar que eles não se dirigiam a mim.
-Não sou um deles! Eu não sou um deles! – Gritei repetidas vezes, sem ouvir a minha própria voz, até que se cessaram os disparos. Joguei-me ao chão do veículo e levantei o meu olhar hesitante. Minha visão se chocou com um homem alto, negro, que recarregava sua escopeta. Parecia ter cerca de trinta anos. Quando me viu, o rapaz tirou uma faca de seu casaco e apontou-a para mim.
-Estou bem, não sou um deles! – Eu disse antes que ele pudesse tomar qualquer decisão precipitada.
- Já ví que você não é um deles. Só espero que não esteja aqui para nos saquear. – Respondeu sem abaixar a arma. - Tem alguma arma? - Tirei a minha faca da cintura e entreguei em sua mão.
-Agora não tenho mais. E também não sou saqueador, mas apenas alguém que quer sair daqui... Mãe! – Exclamei ao ver minha mãe sendo puxada porta adentro. Alguns homens tentavam fechar a porta, enquanto ela -agarrada de sua mala-, apenas agradecia por terem salvo sua vida. Corri em sua direção e levei-a até um assento. O ônibus estava mais deserto do que imaginei.
- Meu nome é Matheus. – Me apresentei ao rapaz que antes tentara atirar em mim.
- Meu nome é Lucas. Desculpe por tudo isso. –
-Tudo bem, mas cadê todo mundo?
-“Todo mundo”... Eu acho que isso é todo mundo. – Ele apontou para o ônibus, com cerca de dez pessoas dentro. – Me desculpe, mas não sobrou muita gente. Desculpe por te desapontar. -