quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

História Paralela# - Parte 2: Renan Lima

   Pela parede exterior, se viu uma grande mancha de sangue ao lado da entrada. Naquele condominio de casas seguro, as moradias não tinham muros, e o quintal era aberto. As portas de entrada feitas de vidro deixavam o lugar ainda mais bonito e charmoso ao olhar de visitantes ou futuros compradores dos imóveis.
   O som do silêncio era uma tortura. A porta de vidro da entrada tinha sido completamente destruída. A cortina branca esvoaçava ao ritmo do vento. Renan caminhava apreensivo, ouvia somente o estalar dos cacos de vidro que se partiam sob seus passos. A sua volta, uma cena de desespero adormecida. Ele sabia que algo havia acontecido ali, mas agora, não fazia diferença.
   Andando de forma lenta e continua, ele adentrou sua casa. Não havia sinal de seus pais, em lugar nenhum. Não haviam bilhetes, mas também não existiam corpos ali. Sua família simplesmente desapareceu em meio ao caos.
   Por todos os lugares, estavam roupas largadas dobradas ou não. Porta-retratos sem suas fotos, talheres pelo chão. O ventilador de teto continuava ligado, agitando levemente os tecidos espalhados.
   Subiu pelas escadas, hesitante. Prendia a respiração para poder ouvir melhor qualquer coisa, o que acabou por mergulhá-lo num silêncio ainda mais profundo e desesperador. Com nada em mãos, o jovem não esperava encontrar nenhum infectado em sua casa. Aliás, rezava para não achar. Seria pelo menos um bom sinal em meio a tudo aquilo.
   Adentrou o seu quarto, e se deparou com uma cena inacreditável. Era um lugar normal. A cama bagunçada, com sua guitarra em cima... Todo o caos parecia não ter chegado até lá. Sentou-se, ainda em silêncio e pôs a cabeça entre as mãos.
   Por um momento, pensou que todos estivessem mortos. Mas então percebeu que não haviam corpos na casa, e nem infectados por perto. De fato, quando caminhou pelo seu condominio, tudo parecia estranhamente abandonado. Mas outra coisa era interessante: As fotos da casa... Sumiram.

“Saqueadores não teriam levado as fotos” Renan pensou consigo mesmo.

   Levantou-se hesitante da cama. Havia abandonado Matheus por nada. Deixou de ir para a evacuação por uma esperança falsa. Agora estaria condenado por isso. Ainda atordoado, ligou a televisão no canal de noticias.
   Na tela, um âncora americano falava por trás da mesa. Renan, que tinha um inglês fluente, conseguia entender sem dificuldade tudo o que o homem falava.

No Brasil, a infecção tomou proporções inimagináveis. William E. Brooks disse em sua coletiva mais cedo que deu por encerradas as operações de evacuação das cidades afetadas. Em Nova York, uma ameaça ainda não confirmada fez com que um prédio fosse posto em estado de quarentena...

   A cena saiu do estúdio para uma imagem de helicóptero de um prédio aparentemente comum, completamente cercado pela polícia. Era noite, e as sirenes do chão iluminavam praticamente toda a cena. Enquanto o helicóptero de noticias sobrevoava a cena, era possível ver outras luzes pelo céu. De repente, um tiro. Abalado pelo susto, a câmera tremeu por alguns instantes, como que desfocalizada.
   Renan desligou a TV e pôs o controle remoto sobre uma das prateleiras de seu quarto. Pensou em montar abrigo em sua própria casa, mas logo percebeu que não seria uma boa ideia. Percebera alguns instantes atrás que a água fora cortada, e os suprimentos do lugar davam para poucos dias.
   Caminhou de volta à sala. Em cima da estante, um porta-retratos estava virado para baixo. Renan pegou-o com cuidado e viu, contente, uma foto de sua família. Apesar da rachadura no canto superior direito, pôde ver no rosto de sua mãe, o motivo de ele estar ali.
   À esquerda, sua mãe, Clara, sorria alegremente para a câmera. Renan estava ao centro, com um largo sorriso, que deixava seus olhos quase fechados. No canto da direita, seu pai olhava para outro lugar que não a câmera, e tinha um sorriso bem discreto, quase imperceptível. O rosto paterno era também familiar por outros motivos. Por sorte, Renan havia sido criado por Renato. Um dos poucos privilegiados que podia recrutar jovens para os Lobos Azuis.
   Surpreso, Renan viu cair por entre a moldura um pedaço de papel dobrado. O pequeno objeto caiu graciosamente, deslizando no ar de um lado para o outro. O olhar incrédulo de Renan o acompanhando. Sem ousar desviar o olhar, ele se agachou para pegar o papelzinho.
   Em seu verso, viu por entre as marcas da dobradura a caligrafia fina e delicada de sua mãe, porém escrita sem muito capricho, atravessando linhas e comendo letras. Foi tomado instantaneamente por uma onda de felicidade, e sentiu novamente um sorriso tomar-lhe o rosto. Sem tempo a perder, começou a ler o bilhete.

Renan,
Se você está lendo isso, é porque a essa altura nós já partimos. Os amigos do seu pai confirmaram que Mangaratiba é seguro. Não há nenhuma dessas criaturas por lá. Beijos de sua mãe,
Clara”

   A mensagem era curta e direta. Renan leu o trecho “Mangaratiba é seguro” repetidas vezes, sem acreditar no que estava vendo. Então ele estava certo, era para lá que deveria ir. No fim, sua vinda até a casa dos pais não foi uma total perda de tempo. Renan pegou de seu quarto um taco de beisebol pequeno e compacto, que causava um grande estrago. Que perguntassem a Matheus, que já fora tantas vezes agredido com ele, no meio das brincadeiras violentas dos amigos.
   Água e comida, como sempre, foram procurados e estocados. No final, Renan saía de casa com mais coisas do que imaginava, além de estar seguro de que agora tudo ficaria bem. Saiu pela porta de vidro e observou mais uma vez, o veículo estacionado em frente a sua casa. Uma moto de cor azul metálica: A Kawasaki Ninja de um dos vizinhos. Renan não demorou para achar dentro da casa do Seu Antônio a chave do veículo que ele não mais utilizaria. Quando Renan entrou em sua casa, tudo o que o vizinho queria era um pedaço da sua carne. Mas com seu perfil característico, o garoto nem passou perto de ser mordido. Seu Antônio acabou no chão da sua sala de estar, morto de verdade, com uma chave de fenda enfiada em um dos olhos.
   Mas agora isso era passado. O futuro estava na moto, e em Mangaratiba. Um lugar normal, cheio de Lobos. Se desse sorte, talvez o ônibus de evacuação tivesse ido para lá. E Matheus estivesse ao lado de seu pai, Renato, perguntando onde estaria seu amigo. Não fazia diferença. Breve, Renan estaria lá também.










Para mais informações sobre o caso em Nova York: www.livrodezumbis.blogspot.com

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Capitulo 18 - Novas emoções

   Silêncio. Com a visão turva, eu enxergava nada além de uma enegrecida fumaça esvoaçar para todas as direções. Um véu negro de fuligem e cinzas me impediam de ver o azul do céu logo acima de mim. Luzes vacilantes de chamas iluminavam os escombros, deixando tudo com uma aparência avermelhada.
   A poeira tinha tomado conta de tudo, vultos enegrecidos vagavam de um lado ao outro, por entre grandes pedaços de concreto e carros revirados. Eu ouvia vozes distantes e vazias, e um zumbido forte ainda ecoava na minha cabeça. Tossia desenfreado, engasgado com a poeira que adentrava-me os pulmões.
   Meu corpo todo doía, e havia escoriações pelas minhas costas e braços. Eu sabia que em dado momento, eu tinha caído do carro que ainda corria. Meus amigos... Eu não tinha ideia de onde estavam. Lembrava apenas de ver Marcos deslizando para longe, rolando pelo asfalto, quando pulou para fora do veículo.
   Sem saber onde estava, esfreguei os meus olhos com as costas das mãos. Foi tudo em que eu consegui pensar naquele momento. Enxerguei com certa dificuldade, Marcos rastejando dentre os escombros. Minha visão hesitava, ficando turva e melhorando alternadamente. Ele estendia a mão para frente, sem nada no campo de visão.
   Apoiei os braços em uma estrutura metálica e me levantei, soltando um grunhido de esforço. Percebi que estava mancando inconscientemente, enquanto tentava andar até Marcos. Era a única pessoa conhecida que eu avistava. Ao meu redor, eu via de tudo: Carros prensados contra rochas, veículos presos debaixo de escombros, corpos dependurados nas estruturas. Pessoas gemiam e gritavam enquanto tentavam salvar suas vidas.
   Eu estava caminhando na direção de meu amigo quando notei um pedregulho se mexendo poucos metros a minha frente. Ele levantava alguns centímetros e caía novamente, como se estivesse sendo forçado por baixo. Inicialmente me assustei e parei de andar, mas logo disparei uma leve corrida até o local.
   Apressado, eu senti a dor nos joelhos quando me joguei no chão duro, com as articulações dobradas. Uma onda de choque se propagou por toda a minha perna, mas eu não liguei. Tentava ajudar desesperado quem quer que fosse. Podia ser Renan, ou Amanda...
   Eu puxava a pedra para cima e para trás, fazendo com que ela se desencaixasse do restante. Era tão pesada que os meus músculos doíam pelo esforço. Era como se fosse impossível tirá-la dali, até que por um milagre, o impedimento deslizou sobre outra rocha e desobstruiu a passagem. De imediato, uma fumaça branca saiu do lugar e se dispersou.

-Lucas! - Gritou um jovem empoeirado. Empoeirado era pouco, ele estava completamente cinza mesmo. Ainda tossia quando ajudei-o a sair do buraco. Estava tão diferente que eu demorei alguns segundos para reconhecer David.

-Ãnh... Eu sou o Matheus. - Respondi brevemente. Mas ele não estava me ouvindo, apoiou-se em uma estrutura de metal enferrujada e esticou o braço para dentro do buraco de onde saíra.

-Segura na minha mão! - Ele gritou. No momento seguinte, assisti surpreso o rapaz puxar Michele para cima, com uma só mão, rangendo os dentes de esforço. A garota largou-se no chão, caindo com o corpo mole. 
Parecia exausta. Usou as últimas de suas forças para agradecer ao jovem, que acabara de tirar a moça dali.
   David havia se largado no concreto ao lado de Michele, com a respiração ofegante. Seu peito subia e descia a cada inspiração. Michele olhava para ele, que estava de olhos fechados. Era impossível saber no que o rapaz estava pensando.
   De repente, um braço se esticou para fora do buraco e se agarrou no chão. Com uma força tremenda, Renan se puxou para fora. Suspirando de dor, rolou para o lado. Todo o seu braço esquerdo estava coberto de queimaduras e bolhas. Corri até ele de olhos arregalados, sem saber o que fazer.
“É impossível” Eu dizia para mim mesmo “O Renan nunca se machuca”. Agachei próximo ao meu amigo e tirei minha camisa. Sacudi-a fortemente para tirar a poeira, e então amarrei em torno da sua ferida, enquanto ele cerrava os dentes.

-Está tudo bem... Salve os outros. - Dizia Renan, enquanto se levantava. Estava quase tão sujo quanto eu. -Eu vou ficar bem, você sabe. - Disse ele com um sorriso, se esforçando para não deixar que a dor lhe superasse.

   Ajudei meu amigo a se levantar, enquanto nós olhávamos em volta. Soldados pegavam suas armas e andavam observando o que tinha acontecido. A fumaça baixou, e eu percebi que ainda não estávamos à céu aberto. Acima de nossas cabeças, um grande pedaço contorcido e rachado de concreto representava o que restou do tunel. Uma luz se via a uns cinquenta metros a frente.
   Algumas pessoas mancavam, outras estavam seriamente feridas, de forma que nem vale a pena comentar. Muitas tinham morrido. Olhei para o caminho de onde viemos. Havia nada mais que uma pilha de rochas gigantes, do tamanho de ônibus. Os escombros me tampavam totalmente a visão de alguma parte da base militar que fugimos.

-Por aqui. - Disse uma voz atrás de mim. Me deparei com Lucas de pé e ofegante, com arranhões leves no rosto. Marcos, que eu vira rastejando alguns momentos atrás, estava apoiado em seu ombro, parecia desacordado. Amanda se encontrava parada atrás dos dois, aparentemente ilesa. Ela fitava o pequeno ponto no fim do túnel, de onde saía uma agradável luz esbranquiçada, que passava a sensação de tranquilidade e esperança.

   David e Michele, que até poucos segundos atrás estavam deitados e conversando baixinho entre eles, tinham levantado. Assim que começamos a andar, eles já estavam atrás de nós, com a passada um pouco mais lenta. Falavam tranquilamente entre si, trocando sorrisos.
   De repente, fomos parados por um homem de aparência ruim. Era um militar de vestes rasgadas e sujas. Apontava seu rifle em nossa direção, quase sem aguentar o peso da própria arma. Andava mancando em nossa direção.

-Nenhum paciente... - Ele tossia. -Pode deixar a base vivo. - Falava o homem, enquanto tentava com o braço esquerdo destravar a arma.

-Que legal! - Exclamou Renan. - E eu achando que iria ficar sem a M16 que eu tinha encontrado! -

   Meu amigo se aproximou do homem com um olhar alegre. Eu sabia que o militar não tinha a menor chance, mesmo com Renan ferido. Olhei sem piscar para a rápida luta, se é que poderia se considerar uma luta.
Ao perceber a movimentação em sua direção, o militar ergueu a arma e disparou uma rajada de tiros que ecoou por todo o túnel. Porém Renan previsualizou o movimento e se esquivou, como se deslizando para o lado. Com um único chute, a arma saiu completamente dos braços do soldado, que gemeu de dor ao sentir a coronha do rifle bater em seu rosto. Caiu sentado, o homem. Como que esquecido do agressor, meu amigo simplesmente andou até a arma e a pegou. A essa altura, o soldado enlouquecido já estava desacordado, com seu corpo largado debilmente pelo chão.

-Estão todos bem? - Renan perguntou, andando calmamente ao meu lado. Seu braço tinha uma aparência horrível, diferentemente do que a expressão dele demonstrava. Renan tinha um semblante calmo, como se nada tivesse acontecido. Antes de começarmos a caminhada, ele tinha tirado a blusa e enrolado-a no ferimento, para evitar infecções. Com o seu casaco, fez algo semelhante a um gesso, que deixava o seu braço ferido pendurado em seu pescoço por um fio de tecido.

-Na medida do possível. - Respondeu David, que eu até agora não tinha ouvido falar.

-Eu acho... - Dizia uma voz mais grave, da minha frente. -Que a gente deu sorte.- Marcos dizia, interrompendo a voz a cada pico de dor que sentia.

-Sorte? - Perguntou Lucas, que o carregava. Por um instante, ele interrompeu a passada. -Nós perdemos um amigo. Dois dos nossos melhores homens estão incapacitados! Você acha que isso é sorte? -

   Todos se abalaram com as fortes palavras de Lucas. Suas expressões surpresas mesclavam algo entre “Pegou pesado” e “Você não precisava ter dito isso”. De repente, um riso abafado cresceu em meio ao silêncio. Renan tapava o rosto com a própria mão, enquanto soltava uma gostosa gargalhada.

-Eu não estou incapacitado, cara! - Disse ele, casualmente.

-Olhe para o seu braço, você acha que a gente não vê essas bolhas aí?- Insistia Lucas. Lembrei-me que ele não conhecia o lado durão do meu amigo.

-Tudo se resume no que a gente sabe e no que a gente não sabe. - Respondeu Renan, dessa vez com um rosto sério. - Por exemplo: Eu sei que posso te matar mesmo com o meu braço todo ferrado. - Vi o rosto de Lucas se contorcer de raiva, e ele já abria a boca para falar algo. -... Mas o que eu não sei, - Continuou Renan. -É se eu poderia conviver comigo mesmo sabendo que eu matei um amigo meu só porque ele me chamou de “incapacitado”. -

   O silêncio reinou outra vez. Nesse momento, já estavam todos parados em um círculo mal feito. Os membros do grupo trocavam olhares entre si. Michele começou a assobiar uma música alegre, completamente desinteressada no assunto que era discutido. Lucas fechou o punho. Renan ainda o olhava de esguelha, sem dar sequer atenção ao jovem irritado.

-Todos nós perdemos amigos, Lucas. - Disse Renan simplesmente, deixando o ar desafiador de lado. Era agora um Renan triste, mas decidido. Lucas parecia surpreso com a repentina mudança da discussão. -Todos nós perdemos parentes... Mas isso não é motivo para perder a calma, ameaçando assim a sobrevivência de todos os outros pelos quais você vem zelando. -

   Marcos se soltou de Lucas e dobrou levemente a perna direita, ao tocar o chão com ela. Deu para perceber onde era sua ferida. Uma mancha de sangue encharcava toda a sua calça militar. (Sim, ele pegou um uniforme do exército, junto com o jipe). Sem olhar para nós, deu um passo a frente, na direção da luz. Todos se entreolharam, e entenderam sem trocar uma palavra, que deveriam imitar o gesto. Recomeçaram todos a caminhar, deixando Lucas para trás, com um olhar perdido e cabisbaixo.
   Eu era o que estava mais atrás do grupo. Com passos pequenos e vacilantes, me aproximei dele. Ao olhar para mim, vi lágrimas surgirem em seus olhos. Eu nada disse, e ele tampouco. Dei um tapa de leve em suas costas, e convidei-o a nos acompanhar.
   Uma fogueira crepitava ao canto da estrada. Nós havíamos saído do túnel há algumas horas atrás. Nosso grupo ria e conversava descontraído, enquanto eu permanecia deitado sobre um pedaço de papelão jogado no acostamento. Acima de mim, um céu estrelado cobria todo o céu. Uma brisa suave soprava meu rosto, me dando uma boa impressão sobre o dia seguinte.
   Amanda e Lucas tinham buscado por mantimentos o resto da tarde que tiveram com luz do sol. Em nosso pequeno acampamento, tínhamos garrafas de água e amendoim que dariam para... Menos de um dia. Mas eramos muitos, e tínhamos uns aos outros. Ninguém parecia assustado ou desanimado, além de mim.
   Agora, conversavam os dois perto da fogueira. O fogo avermelhado refletia fortemente nos olhos chorosos do meu amigo. Amanda parecia consolá-lo com algumas palavras doces de afeto. Como sempre, tinha aquele ar feliz, que me trazia certa paz. Eu jamais me permitia olhar para ela por muito tempo, sua beleza era desconcertante, de forma que eu não conseguia controlar mais minha fala. Estaria eu apaixonado? Pouco provável, isso não poderia ser verdade.
   De um lado a outro, Marcos andava com um cigarro entre os dedos. “Cinco dias sem fumar não é pra qualquer um” Ele dizia sem parar. Michele e David pareciam ter realmente se introsado nas últimas horas. Conversavam mais isolados do restante do grupo, com um ar leve e descontraído.
Renan, como eu, tinha se isolado. Em outro lugar, mais para a escuridão. Eu mal distinguia o seu casaco de capuz a alguns metros de distância noite adentro, onde ele se encontrava sentado no capô de um carro, abraçando as próprias pernas, com o olhar perdido.

-O que será de nós agora? - Perguntou Amanda, sentando em minha frente. Carregava consigo duas garrafas de água. Ao sentar-se, me ofereceu uma delas, que aceitei de bom grado. Tinha como sempre aquele olhar vivo e brilhante, que me animava instantaneamente.

-Eu não sei. - Respondi, retribuindo o olhar com um sorriso. Abri a garrafa e dei uma golada.

-Isso sim é novidade. - Disse ela rindo. - Você sempre sabe o que dizer, o que fazer. -

-Ãnh? Não, esse é o Ren...

-Não, estou falando de você mesmo! - Falava ela, sorrindo. -Você pode estar sempre no seu canto, desanimado, mas quando surge algum problema, é também o primeiro que se esforça para resolver.

-Não, eu nunca sei...

-Você é incrível... - Dizia ela, um pouco mais timida agora. Algo que ela falou ou iria falar parecia deixá-la envergonhada. -Eu gosto de você. - Disse baixinho, quase num sussurro. Amanda não sorria, não demonstrava emoção. Seu rosto, rosado, parecia ainda mais belo. Ela me encarava com aqueles grandes olhos castanhos, esperando ansiosa por algum tipo de resposta.
   Por um momento, um silêncio pairou sobre a cena. À nossa volta, ninguém mais parecia ter ouvido o que ela falara. Gosta de mim? Era muita sorte para ser verdade.

-Eu acho que... - De repente, estávamos nos beijando.

   Eu não sei exatamente quando aconteceu, ou como, mas já estava acontecendo. Ela tinha lábios doces e macios, que me envolviam de tal forma, que eu já tinha desistido de resistir antes mesmo de tentar. Se aquilo era um sonho, eu não iria querer acordar nunca mais.
   Antes que eu pudesse pensar, minhas mãos se envolviam em sua cintura. Eu sentia o calor de seu corpo, a doçura de sua pele. Eu sentia suas mãos deslizarem pela minha camisa...

-Hey, Matheus! Eu vou precisar de voc... - Marcos parou de falar, observando o que tinha acontecido. Assustados, eu e Amanda nos separamos imediatamente. Olhávamos para ele nervosos, eu sabia que eu pelo menos, estava também feliz.

-Ah – Dizia ele, incomodado por nossos olhares – Sinto que interrompi alguma coisa...

-Não, não interrompeu nada. - Apressou-se Amanda a dizer, enquanto se levantava. -Eu já estava de saída.

-Anh... Então tá. - Falou Marcos, um tanto desconfiado. -Matheus, se importa em vir comigo um instante? Preciso de alguém para me ajudar a fazer outra fogueira.
   Concordei com um aceno de cabeça, e olhei disfarçadamente para Amanda, que se afastava sorrindo. Dei um sorriso para mim mesmo, enquanto levantava. Naquela noite, nada de ruim poderia estragar a minha felicidade.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Capitulo 17 - A última fuga

   O caos era completo. De um lado a outro da base, soldados e civis corriam desesperados se esquivando dos infectados raivosos. Pessoas caindo... Sendo pisoteadas. No meio da confusão, reparei que os atiradores disparavam agora contra todos os fugitivos, além dos desmortos. Civis caíam em plena fuga, rolando pelo chão áspero do exterior, envoltos em gritos e morte.
   Quando Renan me viu, um sorriso surgiu em seu rosto instantaneamente. Era como rever um velho amigo, um amigo de infância. Pareciam anos, o tempo que passei sem vê-lo. Para ser sincero, não esperava encontrá-lo novamente. Pelo menos não vivo.
-Matheus! - Ele disse, surpreso. Em meio ao pânico e correria, ele só aumentou um pouco a velocidade da passada em minha direção, carregando o fuzil M16 que pegara de um soldado. Apoiava a arma no ombro, como se já estivesse bem familiarizado com ela.
   Cumprimentou-me com um abraço apertado que me deixou sem fôlego. A sua felicidade estava estampada no rosto, tal como a minha. Por um momento, as pessoas no carro ficaram sem palavras. O único que também conhecia o Renan era Lucas, que no momento estava mais preocupado com um zumbi que se aproximava pela lateral.

-Fez amigos, hein? - Perguntou Renan, descontraído. Tinha um sorriso fácil, diferente do Renan que eu conhecia antes. Subindo na caçamba do jipe, ele olhou em volta e percebeu o que não tínhamos notado até então. Enquanto Marcos manobrava velozmente por dentro do cercado, acabamos por perceber que não tinha nenhuma saída visível. Outros carros que tentavam sair ao redor acabavam por bater em alguma coisa ou dirigir desgovernados pelo pátio. Lembro de ver uma mulher ser arremessada no ar a uns três metros de altura, quando atingida por um blindado.
    Os portões estavam todos fechados, e as grades, sendo abertas por centenas de desmortos carnívoros. Estávamos numa ilha de morte. Sem pensar muito bem, saltei pelo beiral da caçamba e corri na direção de uma das torres. Vi um desmorto em minha frente se adiantar na minha direção e ouvi um disparo. A cabeça dele estourou em um vermelho vivo, derrubando-o. Foi tão simples e rápido que eu sequer parei minha corrida. Renan estava me seguindo, e me dando cobertura com o rifle de assalto.
   Ao entrar pela pequena porta de ferro no térreo, me deparei com uma longa escada em espiral que subia em círculos intermináveis até o ponto de onde o atirador se posicionava. Na minha mente, lá também deveria ficar um painel que controlasse os portões. Renan não me perguntou nada, simplesmente me seguia, checando os arredores.
   Cheguei já cansado ao ponto de vigília. Como eu imaginei, um longo painel eletrônico se estendia por toda a pequena sala circular. Na varanda, um homem uniformizado e de colete disparava com uma arma de luneta em seus alvos por todo o pátio. Ele matava humanos e desmortos, indiferente. Fiz um gesto para Renan manter o silêncio, e puxei o homem para trás pelas roupas repentinamente,  tapando-lhe a boca. Ele gemeu e lutou por pouco tempo. No momento seguinte, havia sido arremessado pela outra varanda do lado oposto. Com gritos de desespero, ele fez sua curta jornada até o chão. E então os gritos cessaram. Sua arma estava agora em minhas mãos.

-Nossa. - Foi tudo o que Renan disse, com uma expressão impressionada no rosto. - Achei que você não fosse de matar inocentes. -

   Calado pelo ar de acusação na frase, eu nada respondi. Desviei o olhar e comecei imediatamente a apertar todos os botões que eu julgava serem os corretos. O rifle sniper balançava pendurado em minhas costas pela bandoleira.

-Inocentes... Não mato inocentes. - Respondi com algum atraso. Renan olhou mais uma vez para o corpo estendido do militar no chão há alguns metros e entendeu o que eu quis dizer. Ele acenou com a cabeça com uma expressão de “tem razão”.
   Eu continuava a apertar alguns botões quando ouvi um som terrivelmente diferente cortando toda a confusão. Era um barulho como se mil trombetas fossem tocadas juntas e descompassadas, como o metal de um navio se torcendo antes de ceder. Olhei pela varanda para ver o que estava acontecendo.
   Era inimaginável. Do piso no pátio, uma parte do chão afundava, deixando um vão escuro a frente. O pedaço de terra descia diagonalmente enquanto o vão só aumentava. Fiquei mais perplexo ainda ao perceber que formava uma rampa. Uma ladeira que levava a nada além da escuridão. Ao parar de se mover, um apito soou alto por toda a base. Como o de um caminhão dando ré, mas ainda mais alto que isso.
   Olhei para Renan, e tive a oportunidade de vê-lo boquiaberto pela primeira vez. Meu amigo não retribuiu o olhar, continuava observando aquela cena inacreditável. Alguns segundos depois, lâmpadas se acenderam dentro do buraco e piscaram algumas vezes, mas logo estavam estáveis. Só se via poeira dentro da passagem.
-É... É um túnel. - Falou Renan, quase sorrindo. Estava tão pasmo quanto eu.
Trocamos um rápido olhar, e entendemos um o pensamento do outro. Tão rápido quanto chegamos ali, estávamos saindo. Corríamos de volta para o jipe quando nos encontramos com Lucas e João subindo as escadas em espiral.
-O que estão fazendo aqui? - Perguntei.
-Queremos ajudar! - Responderam em um coro. Notei que Renan sorria mais uma vez, de cabeça baixa.
-Está tudo resolvido, agora corram para o jipe que é a melhor forma de ajudar! - Respondi.
   Éramos quatro correndo para fora da pequena torre. Carros atravessavam o pátio a toda a velocidade na direção da rampa, arrebentando de vez as cercas e grades. Civis e infectados voavam por todos os lados, atropelados sem misericórdia. Os gritos agora vinham de cada canto da base. Os desmortos tinham arrumado um jeito de chegar às torres, de onde os soldados agora atiravam uns contra os outros.
   Marcos dirigia o carro com habilidade, e freou o veículo uns vinte metros a nossa frente. Renan cobria nossa corrida com o fuzil, enquanto corríamos em velocidade uniforme para o carro. Faltavam cinco metros. Cinco metros...
   Tudo aconteceu rápido demais. Ao mesmo tempo, pareceu acontecer em câmera lenta, diante de meus olhos. João e Lucas corriam a minha frente. De forma paranoica, João olhava em volta, procurando por zumbis ou o que fosse.

-Lucas! - Ele gritou de repente, se jogando contra o amigo, de peito aberto e braços esticados.

   A cena foi quase toda visual. Um jato de sangue respingou para os lados. O tiro que acertou João quase não foi ouvido em meio à confusão. Atordoado, o ferido olhou para o próprio peito, incrédulo. Chegou a ver e encostar a mão no buraco escuro que a bala formou entre suas costelas. Segundos depois, ele caía ajoelhado no asfalto quente. O olhar se desfocando, a respiração cada vez mais lenta.

-Nãããão! - Lucas gritou, agarrando o amigo antes que ele pudesse cair de lado no chão. Os dois de olhos lacrimejados. João não parecia triste, nem arrependido... Nem irritado. Parecia livre.
-At-até a morte... -Disse ele, olhando para Lucas. Nesse momento, Lucas chorou ainda mais emocionado. Demorou alguns instantes até que pudesse responder.

   Renan se jogou na frente dos dois amigos e se abaixou, disparando com o M16 em todos os lugares onde via militares. Inúmeros soldados foram abatidos, enquanto ele soltava rajadas e mais rajadas de morte.

-Até a morte. - Respondeu Lucas, sem ligar para nada do que acontecia em volta. O rosto contorcido pela mais profunda tristeza e lamentação. Lágrimas escorriam desenfreadas pelo seu rosto.

-Precisamos sair daqui! - Falei. Lucas desabou em lágrimas, olhando para o já desacordado João, que ainda de olhos abertos, olhava o pôr do sol. Ele tinha uma expressão tranquila, diferente do resto de nós. Vi Lucas colocar gentilmente o corpo de seu amigo no chão, e nesse momento até eu deixei cair uma lágrima.

   Demos alguns passos em direção ao jipe, e eu pude ver Lucas olhando para trás, uma última vez. João continuava deitado lá, imóvel. Com a expressão serena. Nenhum infectado tinha vindo até ele. Nada se disse no carro. Marcos, engatando a marcha, adiantou-se na direção da rampa.

-Esterilização total em 10... 9... 8... 7... - A voz gravada de uma mulher falava novamente. Sua voz saía de todas as caixas de som espalhadas pelo pátio e pelas torres. Marcos avançava com toda a velocidade que o veículo aguentava. Nós nos segurávamos da melhor forma que podíamos, na caçamba.

   O carro não entrou calmamente na rampa. Ele simplesmente voou buraco adentro. Por causa da velocidade, perdemos totalmente o contato com o chão assim que entramos na passagem.
-3... 2... 1... 0. Esterilização iniciada. -
   Nada se ouviu. De forma muda e silenciosa, tudo ficou branco. Como em um relâmpago ou algo parecido. A imagem me voltou aos olhos, e em seguida um som ensurdecedor tomou-nos de completo. Eram como mil granadas explodindo ao lado de seu ouvido. Em menos de um segundo, tudo o que eu ouvia era um zumbido sinistro e ameaçador. Tudo o que eu via ia tomando uma cor avermelhada. O túnel tremia como se estivesse prestes a desabar a qualquer momento.
   Uma língua de fogo entrava pela parte de trás do túnel, em uma velocidade inacreditável. Era uma nuvem avermelhada e incrivelmente quente que engolia a todos que não saíam do caminho. Homens gritavam enquanto seus veículos eram sugados por aquela massa de ar quente e napalm.

-Vai! - Gritei, sem ouvir a própria voz. Eu podia sentir o veículo titubear, derrapando em vários trechos do caminho acidentado. Todos mantinham os olhos arregalados. Com exceção de Lucas, e do David. Os dois pareciam envoltos nas próprias lamentações, sem ligar para o mundo.
   Uma luz branca e tranquila estava a uns cem metros à nossa frente. Era a saída. O carro acelerava, mas o fogo era mais rápido. Tudo tremeu mais forte, a carroceria do veículo estalava como se fosse desmanchar. Poeira caiu por todos os lados. O som se tornou assutadoramente mais alto, era como o rugido de uma fera, prestes a devorar sua presa. Uma última tremedeira, uma última olhada para trás. O fogo estava a menos de vinte metros do veículo... E de repente eu não enxergava mais nada. Tudo mergulhou na mais profunda escuridão.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

História Paralela - Renan Lima

   A rua estava fria e deserta. Escuridão adentro, uma figura solitária caminhava levando nada mais que uma pá em seus braços. Tinha também uma mochila em bom estado nas costas, mas que de fato não continha nenhuma arma. Seguia por uma pista deserta, cheia de carros que ainda pegavam fogo e iluminavam a cidade enegrecida numa luz vermelha e vacilante.
   Há alguns minutos, tinha se despedido do seu melhor amigo. Deixara ele com a mãe em uma loja de roupas no centro da cidade, torcendo pelo melhor. Agora era a hora de ele próprio buscar pela sua família. Tinha quase certeza de que o seu pai sobreviveria. Porém nada sabia a respeito da mãe.
   Renan olhou para trás somente quando pensou ter ouvido um som de motor. Sorriu para si mesmo, enquanto cobria a cabeça com um capuz. “Pelo menos eles vão ficar bem” pensou ao lembrar do ônibus de evacuação que deixara seu amigo esperando. Porém essa certeza logo foi embora quando avistou zumbis saindo de diversos locais. Renan se empoleirou atrás do capô de um carro enguiçado enquanto os desmortos saíam de becos e vielas, correndo em transe na direção do som de motor. Por mais que quisesse ajudar, o rapaz nada poderia fazer. Eles estavam por conta própria.
   Um dos zumbis, porém, notou Renan enquanto passava rente ao veículo abandonado. Hipnotizado, correu na direção do jovem, sedento por sua carne. Renan manteve a calma e lembrou-se do treinamento que tivera. Por alguns segundos pareceu que não reagiria. Porém não se sabe quando, talvez no último segundo, o rapaz se moveu tão rapidamente que foi impossível acompanhá-lo com o olhar. Em um momento, o desmorto tinha conseguido colocar as mãos na camisa dele, e no outro, estava jogado com o rosto contra o asfalto. O jovem apanhou uma barra enferrujada que estava no canto e o posicionou na nuca do infectado, que se contorcia disposto a morder qualquer coisa que conseguisse. Renan usou a pá como um martelo gigante, e deu apenas uma pancada na parte de trás da barra, com a parte de madeira. O desmorto silenciou na hora.
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   O jovem rapaz caminhou solitário por uma longa distância, protegido pela escuridão. Olhou para seu relógio de pulso já quase sem bateria. Os números estavam meio apagados, porém ao que tudo indicavam, eram cerca de três horas da manhã. Abatido pelo cansaço, Renan sabia que precisava de um lugar para dormir. E aquele pequeno bar do outro lado da rua parecera ideal para isso.
   Ao se aproximar, o garoto pôde ver mais claramente o interior do ambiente, por entre tábuas de madeira sobre o vidro. O lugar parecia ter sido barricado por alguém, e sendo assim, era promessa de segurança. Por precaução, talvez, Renan decidiu não incomodar o sobrevivente que estivesse ali dentro. Olhou para a parede do lugar, com o olhar concentrado e analisou-o de um lado a outro.
   Como que decidido, Renan deu um passo na direção do estabelecimento e pegou firmemente um buraco na madeira exterior. Pôs um pé na maçaneta da porta de entrada e deu impulso. O rapaz escalou o bar, empoleirando-se nas telhas do lugar. Antes de adormecer, viu ao longe um trio de encapuzados que atravessaram a rua silenciosamente, se distanciando dele. Feliz por ainda existirem pessoas normais, ele se rendeu ao sono.
   Acordou com o sol a pino. A forte luz do dia queimava cada centímetro de seu rosto, o que o fez virar a cabeça rapidamente. Pensou por um momento em Matheus e Rosana, que naquele momento deveriam estar a salvo em algum lugar bem distante. E dormindo em camas macias, ao invés de passar a noite em um telhado de bar.
   Renan olhou mais atentamente as telhas e percebeu uma chaminé ao canto. Na escuridão da noite passada, nem tinha reparado nesse detalhe. Lembrou-se da barricada que encontrou na entrada do lugar, e na esperança de encontrar sobreviventes lá dentro. Sem pensar muito mais tempo, ele jogou sua sacola de mantimentos chaminé abaixo. E em seguida pulou ele mesmo. Mal pensado.
   A queda foi rápida e impetuosa. Renan espatifou-se em cinzas e carvão. Ficou coberto de pó preto até o último fio de cabelo. Tossia como um asmático, quando resolveu sair da lareira. De repente se via dentro de uma pequena loja, que mais parecia uma padaria. Havia um balcão ao seu lado, e logo a frente um bocado de mesinhas de madeira, para fins sociais. Ao canto um sofá vermelho enorme, acostado na parede. Uma TV estava ligada no alto. Porém uma coisa o surpreendeu ainda mais: A três passos de distância, uma mulher de uns quarenta e tantos anos encarava-o com uma expressão ainda mais assustada que a dele.
-É um deles? - Ela perguntou, dirigindo a voz para o sofá. Levantou-se dali, um senhor também de idade, com um pequeno suspiro de esforço.
-Bom... A não ser que aqueles monstros tenham aprendido a invadir abrigos no melhor estilo papai noel... É um humano. - Falou o senhor de idade, abaixando os seus óculos fundo de garrafa para analisar melhor o pequeno projeto de gente, preto como carvão. -Meu nome é Antônio. E essa é Suzana. -
-Ãnh... - Começou o garoto, mas foi impedido por um forte acesso de tosse.
-Aqui – Dizia a mulher, que trazia consigo um copo de água. -Beba isto. - Ofereceu com um sorriso.
   Renan não fez cerimônia e bebeu o líquido de uma só golada, satisfeito por ter água gelada para tomar. Imediatamente, já se sentia um pouco melhor. Levantou-se sem dificuldades e bateu nas próprias roupas, tentando em vão se livrar de toda aquela sujeira.
-Vocês não teriam um pouco de carne seca aí? - Perguntou, enquanto dava uma olhada nas prateleiras.
-Carne seca? - Repetiu o idoso, incrédulo. -Onde você acha que estamos? Num bar? -
-Com todo o respeito, senhor... Foi isso mesmo que eu achei. Onde estamos, afinal?
-Numa padaria, filho. - Esclareceu a mulher, que puxava uma cadeira para se sentar. - Não em qualquer uma, mas na melhor do bairro. Prove um de nossos pães doces! - Ofereceu, apontando para suculentos doces na vitrine do balcão. Agradecido, Renan também pegou um de bom grado. Quando iria se afastar do balcão, porém, avistou um homem no chão. Um homem uniformizado como funcionário da padaria. Tinha um enorme rombo na parte de trás da cabeça, que formara uma poça de sangue no azulejo. Percebendo o seu ar de surpresa, talvez, a mulher se adiantou a explicar a situação:
-Era um deles. - Ela disse, com olhar arrependido. - Um daqueles monstros. Ele tentou me matar e... E... -
-Eu tive que lhe arrancar os miolos. - Interrompeu o idoso, vendo que a mulher começava a irromper em lágrimas. -Mas nenhum de nós teve coragem de tirá-lo daqui porque...
-Ele é o meu filho! O meu filho! - Dito isso, Suzana correu chorosa para os fundos da padaria.
   Por alguns segundos, Antônio pareceu triste, um pouco envergonhado até. Mas essa sensação desapareceu da cabeça de Renan assim que ele puxou uma bela espingarda de dois canos por detrás do sofá avermelhado.
-Essa belezinha aqui... - Dizia orgulhoso da arma, nem sequer olhava para Renan. - É o que nos manteve vivos até agora. -
-Tinha mais alguém aqui? - Perguntou o jovem, tentando desviar o foco da conversa.
-Tinha sim. Uma garota chamada Karen.
-O que houve com ela?
-Foi embora. - Dizia Suzana, que se aproximava novamente, limpando os olhos com um lenço.
-Embora? Por quê? Aqui é tão seguro!
-Não é tão seguro quanto parece, meu jovem.
- Aliás, qual o seu nome? - Perguntou Antônio.
-Renan. Que houve com a garota?
-Ah! Nada de mais! - Dizia Suzana, pensativa. Era como se em sua mente estivesse revivendo os momentos. - Passou um homem aqui, um tal de Caio. E quis levá-la com ele. Eram dois pombinhos.
-Ficaram bem, os dois? - Perguntou Renan, agora até um pouco mais interessado no casal ousado.
-Ninguém sabe. - Respondeu o idoso. - Mas a minha sugestão é que não duraram nem dez minutos lá fora. Era um medroso, sabe? Esse Caíque...
-É Caio, seu velho caduco! - Corrigiu Suzana, enquanto gargalhava. Renan a achava corajosa simplesmente por zombar de um homem armado. Não sabia se faria o mesmo.
   O clima era bem amigável dentro da padaria. Aquelas pessoas simples não pareciam assassinas. E ao mesmo tempo, também não pareciam preocupadas em relação a tudo o que acontecia lá fora. Era uma sensação única estar naquele ambiente tranquilo.
-O exército está agindo, sabia? - Disse Suzana, enquanto aumentava o volume da TV.
   No noticiário, um repórter vestia um colete a prova de balas de cor azul. Atrás dele, soldados disparavam em todas as direções. Pessoas corriam assustadas de um lado a outro. Ao fundo, passavam helicópteros deixando mais soldados no campo de batalha. A câmera tremia.


Tropas militares foram acionadas e já começaram o cerco na cidade do Rio de Janeiro, apesar de existirem indícios de casos em outros lugares do... O que é isso?”


   Mais a frente, um grupo de pessoas encapuzadas corria na direção de um furgão preto. Carregando apenas armas brancas, os homens e mulheres pareciam deslizar pelas ruas, até o veículo. Não se viam os golpes, mas qualquer indivíduo que entrasse em seu caminho era simplesmente derrubado.

-TV a cabo. - Dizia Antônio com um sorriso orgulhoso. - Eu sempre soube que eram mais confiáveis. - O senhor sorria enquanto continuava a assitir o noticiário, enquanto Suzana fazia o mesmo.


-Os lobos azuis – Renan disse para si mesmo, tão baixo que nem o próprio ouviu suas palavras. No momento seguinte, tomado por uma coragem descomunal, ele começou a enfiar pães e outros alimentos dentro do seu saco imundo de suprimentos.

-TV a cabo. - Dizia Antônio com um sorriso orgulhoso. - Eu sempre soube que eram mais confiáveis. - O senhor sorria enquanto continuava a assitir o noticiário, enquanto Suzana fazia o mesmo.


-Renan, pelo que percebo você vai seguir viagem. - Disse Antônio, reparando nos maus modos do garoto.
-Bem... Sim. -
-Não precisa ir assim. - Disse ele. Renan não sabia se o idoso estava se referindo ao estado de seu corpo, ainda negro de cinzas e carvão ou ao fato de ele estar pegando comida dos dois sobreviventes. No final, acabou entendendo que era um pouco dos dois. -Vá tomar um banho, filho. Eu preparo a sua mala. -
-Banho? - Renan não tomava banho desde o dia anterior, e pela manhã cedo, quando se preparou para ir à escola. Desde então, todo o tipo de sujeira tinha se acumulado na sua pele e em suas roupas. Porém ele trazia na sacola um conjunto a mais, que pegara na loja onde se despediu de Matheus.
-Isso mesmo. Tem um pequeno banheiro nos fundos. Era para os funcionários mesmo. - Dizia o idoso. - Mas você pode usá-lo. -


   De fato, o banheiro era bem simples. Havia um espelho bem sujo sobre a pia, uma privada já sem tampa e o chuveiro não tinha sequer uma cortinazinha para fechar. Restou mesmo fechar a porta, que funcionava por ferrolho, e não maçaneta.
   Porém todo o pessimismo foi embora quando a água quente molhou-lhe o rosto. Esquentou agradavelmente suas costas. Naqueles dez minutos que passou se banhando, Renan sentia felicidade. Era como se nada mais pudesse abatê-lo. Ele estava renovado. Lembrou-se então do que Renato lhe falara há algum tempo. “Se qualquer coisa der errado” ele dizia, com seu ar calmo. “Todos os Lobos se reunirão em Mangaratiba.”
   Ao sair do banho, foi surpreendido por uma nova mochila. Antônio havia preparado tudo o que lhe possuía em uma mochila estudantil. Renan estava coberto da cintura para baixo em uma toalha azul marinho muito macia. Vestiu-se ainda no banheiro, antes de ir novamente até os anfitriões.
   Caminhou até lá de mochila nas costas, pronto para partir. Chegou na sala e se deparou com os dois, que aguardavam de pé entre as mesas na entrada. Antônio já havia retirado grande parte das tábuas de madeira que barricavam a porta, e já estava tudo pronto para sua saída.
-Vá com Deus, filho. Espero que consiga encontrar sua família. -
   Pela tarde, os dois haviam conversado bastante. Trocaram ideias de sobrevivência, pontos de resgate e papearam sobre todo o tipo de coisa. Renan já sabia sobre um tal Fortaleza Norte, e a Fortaleza Oeste... Sabia também de alguns grupos de sobrevivência e um tal de William também, que vivia aparecendo na TV. William Eckle Brooks.
   Feliz e surpreso, Renan viu que já havia escurecido. Seria uma viagem tranquila e fresca pela escuridão noturna. Checou visualmente sua calça jeans e olhou para o casaco preto que vestia. Vagarosamente, puxou o capuz até que lhe cobrisse o rosto em sombras.
-Mangaratiba. - Repetiu para si mesmo em um tom sombrio. - É para lá que eu vou. -

sábado, 31 de dezembro de 2011

Capitulo 16 - It's show time

    Estávamos do lado de fora da base, em frente a um grande portão de metal negro. Por cima dos muros, que mediam mais de dez metros de altura, homens armados apontavam suas submetralhadoras para nosso veículo. O muro era de um marrom desbotado, sem pintura alguma. Provavelmente ninguém teve tempo para detalhes, quando a base foi construída.
    O portão se abriu vagarosamente, com um rangido tremendo. Garoto calmamente afundou o pé no acelerador e entrou devagar no pátio da instalação. Por um momento, todo o interior me pareceu deserto. Aquilo não era comum.

-Onde foram todos? - Perguntei. Will simplesmente riu da minha pergunta, como se fosse até um pouco ingênua.
-Você logo verá.- Ele respondeu.

    Pela primeira vez, notei que todas as torres de vigilância eram conectadas por muros largos ou pontes erguidas com cordas. Eram passagens, para que os atiradores pudessem se comunicar ou pelo menos correr para outro lugar.
    Avistei uma pequena movimentação por trás de uma das grades. No momento seguinte, fomos cercados por dez, talvez vinte soldados armados que apontavam suas armas em nossa direção. Um deles fazia sinal para que os demais não disparassem, enquanto ele se aproximava da janela do motorista.
    Garoto acendeu um cigarro, usando a mão esquerda para abrigar o fogo da brisa que entrava pela minha janela quebrada. O homem baixou o lenço que tinha sobre o rosto e bateu no vidro com o nó dos dedos. Nesse momento, o motorista girava a manivela da janela, num movimento lento e preguiçoso.
-Ricardo! - Exclamou o homem surpreso. - Cadê o seu carro? -
-Houve um acidente. - Respondeu Garoto amargamente, enquanto soltava uma baforada de fumaça. -Perdemos um dos nossos. -

    O homem que veio até nós olhou para seus homens e fez um gesto com os braços. No momento seguinte, os demais soldados baixaram as armas e se dispersaram pelo pátio, de volta para suas tarefas rotineiras. O portão novamente começou a se mover, dessa vez fechando-se, com seu característico e incômodo rangido.
-Eu sinto muito. - Disse o homem simplesmente, enquanto se apoiava na janela do carro.
-Está tudo bem. - Respondeu Garoto, sem muita sinceridade. -Leva esse garoto à cela dele. E chame o Doutor Brooks para ir visitá-lo.
-Entendido.
    O soldado fez uma reverência militar rápida e deu a volta no veículo, abrindo minha porta. Deixou que eu saísse antes de falar qualquer coisa.
-Por favor, me acompanhe. - Disse então, enquanto começava a caminhar na direção do prédio principal. No caminho, ele ia recolocando o pedaço de pano que cobria a parte inferior de seu rosto.
    Olhei mais uma vez para cima. Naquele momento, um atirador caminhava tranquilamente por um muro enquanto bebia água de uma garrafa de plástico. Em suas costas, um pesado rifle de longa distância equipado de uma luneta.
-Bem pensado. - Falei para mim mesmo enquanto observava aquele aglomerado de pontes que se erguia acima de nossas cabeças. Notei que nesse momento o soldado que me acompanhava lançou um olhar interrogativo em minha direção, o homem já abria a boca para fazer um comentário.
-Isso mesmo – Eu disse , antes mesmo que algum som saísse de sua boca. - Eu falo sozinho. -

    Passamos por uma das entradas com portas automáticas de concreto. Dois soldados montavam guarda ao lado dela. Notei que um deles acenou para seu colega, que me guiava. O homem então retribuiu, e continuamos caminhando. Logo após entrarmos, eu pude escutar a porta se fechando logo atrás de nós.
    Fui conduzido por um longo corredor iluminado até uma porta de vidro escuro. Notei que aqueles corredores por dentro do prédio eram praticamente idênticos entre eles, seria muito fácil se perder por ali. A porta era de um azul forte, que impedia a minha visão do outro lado. O soldado se virou e abriu uma gaveta ao lado da porta.
-Por favor, coloque as suas roupas aqui. - Dizia ele, apontando para minha vestimenta e o compartimento. -Você vai passar agora por uma esterilização. Não há nada a temer, tudo bem? -
Fitei-o por alguns instantes, sem saber como reagir. Esterilização me lembrava nada menos que fogo. Queimar algo sempre foi a melhor forma de esterilizá-lo, e se a minha lógica estivesse correta, eu preferia ficar bem sujo mesmo.
-Por favor, coloque as roupas aqui. - O homem insistiu, levantando os olhos impaciente. -É só uma chuveirada.
-Foi o que disseram aos judeus. - Respondi, enquanto tirava minha camiseta. Ao me abaixar para tirar os calçados, senti algo frio roçar-me as costas. Lembrei da faca que estava presa na cintura da calça.
-Algo errado? - O soldado perguntou.
-Bom... Eu vou me despir aqui. - Respondi. -Você se importa de olhar para outro lado por alguns instantes?- Perguntei, com um sorriso mal disfarçado.
-Desculpe, senhor. É o procedimento. Você pode estar carregando uma arma, ou uma faca... E isso seria perigoso.
-Ah... Sim. - Respondi desviando o olhar. “Malditos protocolos de segurança”
-Jorge! - Gritou uma voz do final do corredor. Era Will, que carregava consigo uma pesada sacola. -O Brooks quer te ver no gabinete dele. Disse que é importante. -Acrescentou enfaticamente.
-Eu já vou. - Respondeu Jorge, voltando o olhar para mim. Nesse momento, Will saiu da nossa visão, seguindo o seu caminho. Nesse meio tempo de distração, minha calça jeans já estava dobrada e compactamente guardada na gaveta, embrulhando a faca que eu trouxera.
[…]

Era uma sala quente e aconchegante. Os móveis de madeira e o clima tradicional mantinham um ambiente agradável. Renato havia me chamado para a sala logo após o treinamento com facas. Ele estava sentado, atrás de sua imponente mesa de carvalho. Segurava uma caneta em uma mão, e a outra estava pousada sobre uma pesada caixa sobre a mesa.
-Então, eu vi o seu desempenho hoje. - Começou ele. -Nada mal, realmente.-
-Eu fui treinado pelo melhor, senhor. - Agradeci. “Nada mal”, vindo de Renato, era quase como uma admiração profunda.
-Eu sei. - Respondeu sem cerimônias. -E hoje, estamos aqui para melhorar as coisas. Hoje você completa o seu treinamento de dois anos.- Enquanto ele falava, eu me lembrava das inúmeras vezes em que fui forçado a treinar pontaria, equilíbrio e combates, em diversas simulações. Era um sonho estar a ali, na minha formação.
-Eu lhe abri as portas, garoto. - Ele continuou.- Resta você entrar. -
Ao dizer isso, Renato abriu a caixa que mantinha sob sua mão. Dentro do recipiente, havia uma pistola, com um silenciador ao lado. Um casaco de cor escura estava cuidadosamente dobrado dentro da caixa, com o capuz a mostra. Além disso, eu sabia que em algum lugar dali também estariam uma faca de arremesso e um Ás de espadas. Isso mesmo, a carta do baralho.
-Repita as minhas palavras, filho. - Disse Renato, enquanto punha minha mão direita no meu peito.
-Nós trabalhamos na escuridão... Para servir ao bem.
-Nós trabalhamos na escuridão para servir ao bem. - Repeti, com minha voz ligeiramente mais aguda.
-Tudo o que fazemos, é para o bem maior. Pois o mundo tende ao caos, e a natureza do homem..
-É a destruição. - Completei. Nesse momento, vi pela primeira vez Renato sorrir.
-Bem-vindo aos lobos azuis. - Ele disse simplesmente. -Agora chame Renan aqui. Acho que ele também já está pronto. -
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    Jorge se despediu logo após me deixar sob a responsabilidade de dois novos recrutas. Alguns minutos antes, havia me levado à sala de trocas, onde precisei experimentar novas roupas brancas e sem graça. Além de deixar as minhas vestes por lá. Dessa vez, me ocupei em guardar o caminho até aquela sala. “Segunda a direita, terceira à esquerda e segue reto.” Repetia o pensamento em minha mente enquanto os dois homens me algemavam.
    Pelo que me parecia, também era norma do lugar algemar os pacientes -ou detentos- quando eles se encontravam muito no interior do prédio. Como perto de salas importantes ou de pessoas importantes. Chegou a mim a informação de que o doutor Brooks, por exemplo, estava a menos de dois corredores de mim naquele momento, providenciando pilotos de helicópteros. Sejam lá o que fossem, os recrutas não eram bons em guardar segredos.
-Andando. - Disse um deles, enquanto me empurrava o ombro. Apesar de tentar demonstrar confiança, a voz fina do militar não passava o ar de autoridade que se esperaria de um oficial. Com passos longos e lentos, comecei a caminhada em direção à minha cela.
    Finalmente era o fim do aprisionamento. Todo o plano foi baseado em nada mais do que três passos. Passo 1: Sair do estabelecimento. Esse foi até mais fácil do que eu esperava, e consegui fazê-lo logo na primeira tentativa. Passo 2: Atrair a atenção dos infectados para a base da CCAB. Apesar de ser um pouco mais complicado, toda o nosso desespero de volta certamente atraíra centenas de desmortos famintos. Ou senão, pelo menos o som dos disparos de Garoto guiavam eles em nossa direção agora mesmo. Passo 3: Fuga em massa. Iríamos teoricamente nos valer de toda a desorientação dos homens, que estariam lutando contra os zumbis invasores e então escapar dessa maldita base. E agora, finalmente, faltava pouco tempo para a grande fuga.
    Viramos no corredor de minha cela, que eu reconheci assim que chegamos. A terceira luz do corredor piscava a cada três segundos, e esse foi o meu sinal. Notei que o homem a minha esquerda ia aos poucos diminuindo a passada, ficando para trás. Ouvi o som de chaves e então percebi que me soltariam as algemas. Só faltava uma coisa: Os zumbis.
    De repente, o som de um tiro chegou aos nossos ouvidos. Fora abafado pela construção, porém ainda era um barulho bem audível. Os recrutas se entreolharam, sem saber ao certo como reagir. O tempo de paz foi pequeno: Após o primeiro disparo, pouco demorou para que outros fossem ouvidos ao redor da base. Dentro de alguns segundos, uma chuva de fogo era ouvida, oriunda do exterior.
-Atenção todas as unidades... Ameaça iminente nível 5 nos portões de acesso A-1 e B-3. - Dizia uma voz vacilante, dos rádios. A voz era cortada por chiados e tiros que por vezes abafavam o sinal. Requisitando apoio imedi... Ah meu deus! - Tudo o que se ouviu foi um grunhido e mais alguns tiros. Por fim, o sinal sumiu de uma forma tão rápida quanto veio, nos envolvendo em um silêncio agonizante. Chegou a hora.
    O período de tempo antes de uma ação ousada é sempre o mais tenso possível. Você começa a suar frio... a respiração fica pesada... O coração parece dar grandes pulos dentro do peito. Quando a adrenalina está no máximo, a imortalidade parece real. Passo três em ação.
    Em um só movimento, dei um salto e passei os braços ainda algemados para a frente do corpo. Surpreendido pela movimentação brusca, o soldado ao meu lado começava a preparar um golpe quando foi atingido em cheio no rosto pelo meu cotovelo. Ouvi os passos se aproximando de mim, antes de ver o homem golpear. Deslizei para a esquerda em um passo largo, e o pontapé do soldado passou a alguns centímetros de meu corpo. O recruta nunca havia sido preparado para combates, como eu. Ficou sem reação alguma quando, com um rápido movimento, acertei-lhe um chute na boca do estômago e em seguida cabeceei sua têmpora. O homem caiu duro como pedra no chão do corredor. O silêncio tomou conta novamente. Fora uma luta rápida e silenciosa.
    Dois homens desacordados em minha frente. Inúmeros gritos de “viva” eclodiam de várias celas, enquanto o tiroteio continuava lá fora. Iluminado pela luz da lâmpada que piscava, um molho de chaves esperava por mim. Analisei-o com atenção. Uma chave estava mais separada das demais, provavelmente a que o soldado preparou para me soltar. Foi um alívio ter acertado. Fiquei demasiadamente mais feliz quando as algemas saíram na primeira tentativa.
    De mãos livres, corri ao encontro dos meus amigos e comecei a testar as chaves. Assim que consegui soltar Marcos, ele me agradeceu e tomou uma chave para si.
-Essa é a chave mestra. - Disse ele, e em seguida me deu o pequeno objeto. - Salve seus amigos. Eu vou liberar o caminho. -
    Não havia tempo para discussão. Tudo o que posso dizer é que fiquei feliz em saber que existia uma chave mestra. Corri pelos corredores abrindo não só a porta dos meus colegas, mas a de todos os que eu alcançava. Logo os corredores eram uma correria só de sobreviventes desesperados pela liberdade.
-Matheus! - Gritou Amanda, enquanto eu abria sua cela. Ao desobstruir a passagem, a menina se jogou em meus braços, me deixando sem reação. -Obrigada! Essa é a Michele, é gente boa. - Disse ela, apontando para sua companheira de cela. Era uma moça bonita, de cabelos encaracolados e castanhos, de mechas vermelhas.
-Prazer. - Ela disse. Acenei levemente com a cabeça, e chamei-as para fora da cela. No momento seguinte, o clima calmo do interior mudou. De repente, um sonoro alarme soou, e luzes vermelhas iluminaram o local.
-O que é agora? - Perguntei para ninguém, exatamente.
-Alerta de ruptura do perímetro. Medidas de autoproteção iniciadas. - Falou uma voz feminina artificial. A voz vinha ao mesmo tempo de todos os lugares, e não significava algo bom.
-Matheus! - Gritou Marcos, do outro lado do corredor. Trazia consigo João e Lucas. - Vamos embora daqui, os portões estão se fechando! - A voz feminina continuava falando ininterruptamente a mesma mensagem.
    Sem mais demora, nos adiantamos a correr para a saída mais próxima, sem sequer passar pela sala de roupas. “Às vezes” pensei comigo mesmo “nem todo o plano dá certo”. Continuamos correndo até que chegamos a um aglomerado de pessoas de branco, como nós. Estavam todas paradas de pé, olhando para um grupo de três soldados que estava a alguns passos da saída. Todos em silêncio.
-Mais um passo de qualquer um e nós abriremos fogo! - Gritou o mais alto deles.
-Sai daí, nós queremos sair! - Gritou Marcos, ainda mantendo a calma.
    No momento seguinte, ouviu-se um forte baque de metal contra metal. Ao olhar para trás, vimos que uma parede de ferro sólido havia descido do teto, bloqueando a passagem de retardatários. Ao ver que seriam presas ali dentro, gritos dominaram o ambiente, e as pessoas correram desesperadas na direção dos soldados.
    Não demorou, eles abriram fogo contra a multidão desesperada, derrubando inocentes. Porém a massa de gente não cessou e atravessou a saída, levando as armas dos oficiais. Os soldados foram mortos pelos pacientes em pânico. E o caos tomou conta.
    Zumbis corriam atrás de suas presas. Homens passavam de um lado para o outro nas torres de vigília, enquanto disparavam contra a massa de infectados que já tinham adentrado o ambiente. As grades de metal tinham sido contorcidas como plástico macio, e os desmortos entravam sem parar.
    Os atiradores disparavam contra infectados que se adiantavam contra todos presentes. Alguns tentavam partir de carro. Porém um som em especial de hélices me chamou a atenção. Olhei para trás e para cima, visando o terraço do prédio principal. Fiquei chocado ao ver o rosto de Brooks pela portinhola do helicóptero que decolava. Por um momento, pensei tê-lo visto acenar para mim, algo como um “até mais”. Em instantes, o helicóptero se distanciava de nós, seguindo o curso do vento.
-Matheus! - Marcos gritava para mim. Enquanto eu olhava ao redor, todos haviam entrado em um jipe vermelho e antigo. Não era um veículo militar, parecia um carro apreendido mesmo. Marcos estava como motorista, e os demais na garupa. Corri até eles enquanto balas zuniam em volta de mim. Ao que tudo indicava, agora os atiradores estavam acertando tudo o que se movia.
-Quem é este?- Perguntei ao ver um desconhecido encolhido na garupa, segurando fortemente o que parecia ser um colar.
-O nome dele é David. - Disse Amanda, enquanto fechava a porta do carona. - O carro é dele. - Acenei em concordância, sem dizer palavra. Nesse momento, algo me chamou a atenção. Há cerca de dez metros de distância de onde estávamos, havia uma briga acontecendo.
    Um garoto solitário enfrentava nada menos do que três soldados que tentavam imobilizá-lo. Fiquei imóvel ao ver que ele não precisava de ajuda alguma. Um a um, os militares caíam, atingidos por chutes, socos ou coronhadas de suas próprias armas. Lentamente, ao ver todos ao chão, o rapaz se abaixou e pegou um fuzil M16 de um dos combatentes. Ao olhar em nossa direção, fiquei ainda mais surpreso. Vestia uma calça jeans surrada e um casaco azul.

-Renan. -

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Capítulo 15 - "Man Down"

Eu parei de contar os dias. Não sei mais quanto tempo se passou desde que tudo começou. Talvez algumas noites, ou algumas semanas. No máximo um mês. Não importa. Agora, tudo o que eu tenho em mente é fugir da instalação médica e militar para onde estão me levando. Dizem alguns, a base da CCAB.”
O tremular do veículo era a única coisa que eu sentia. Olhava pela janela o que parecia ser um grupo de helicópteros voando na direção norte. Ao julgar pelo sol, eram cerca de duas horas da tarde. A estrada era completamente cheia de carros velhos e abandonados, muitas vezes deixados para trás com as portas abertas. Vasculhei visualmente as ruas por onde passávamos, procurando por corpos. Mas de uma estranha forma, todos pareciam ter desaparecido. Era comum perder o olhar em meio aquela cena de caos e destruição, agora calma e sem vida. O tempo apagara o vestígio do desespero e luta de todos os que ocupavam aqueles carros abandonados, deixando para trás somente sangue seco e o odor fétido das carcaças apodrecidas dos que morreram.
Entretanto, ainda havia sobreviventes, e era só nisso em que eu pensava. O veículo tremulava enquanto se deslocava pelo asfalto, rumando de volta a base de operações médicas e militares da CCAB. Eu tinha certeza que em algum lugar daquela destruição tinham pessoas nervosas, perguntando-se quando a ajuda viria. Eram esses sobreviventes anônimos que me davam a vontade de continuar, batalhar pelos meus amigos.
Eu andava na parte da frente da minivan, vigiado constantemente por Garoto, que continuava dirigindo. Tínhamos perdido o blindado, tínhamos perdido muita coisa naquela missão. Havia marcas de arranhões por todo o meu braço, mas eu não ligava para isso. Continuava passando os dedos pelas marcas de balas na janela. A parte interna do carro estava coberta de sangue, assim como todo o lado direito do uniforme de Garoto. Lágrimas percorriam seu rosto, que ainda assim parecia não demonstrar emoção. Will garantia a segurança com a metralhadora calibre cinquenta que tinha no teto do veículo. Ele já não dava nenhum tiro tinha alguns minutos. O Torrada... Bem... O Torrada não estava mais entre nós.
De repente, Garoto freou bruscamente o carro, fazendo o som de derrapagem ecoar pela estrada. Senti meu corpo sendo arremessado para frente, na direção do porta-luvas. Sem dizer uma palavra, o motorista abriu a sua porta e começou a percorrer o carro até chegar do meu lado. Eu pressenti a ação antes mesmo que ocorresse, mas nada pude fazer. Num movimento rápido e furioso, o soldado abriu a minha porta e me arrancou do jipe, puxando-me pela camisa. Caí de costas contra o chão e fixei os olhos no militar. Deitado no asfalto quente, assisti Garoto praticamente bufar de raiva enquanto tirava do carro uma chave inglesa.
-Me fala um motivo... - Gritava ele. - Só um motivo! Pra que eu não enfie essa porra no seu crânio!-
-Calma, chefe.- Dizia Will, descendo pela parte de trás do furgão. - O senhor está descontrolado...
-Descontrolado é o caralho!- Respondeu o líder, apontando a chave inglesa para o seu soldado. -Esse pirralho trouxe a gente pra uma missão falsa! O Guilherme morreu por causa desse filho da puta!
Fechei meus olhos enquanto relembrava os momentos difíceis que tínhamos vivido há alguns minutos. Sentia nada mais que o concreto quente em minhas costas e a brisa do final do dia. Aos poucos, a voz de Garoto foi abaixando, até desaparecer por completo.

#Flashback
-Pra onde?! Pra onde?! - Gritava Garoto enquanto desviava dos infectados que atacavam o veículo, impedindo o motorista de acelerar. Eles não paravam de se aproximar, e aos poucos o nosso carro perdia velocidade enquanto adentrava a horda de zumbis. Logo nós estaríamos completamente cercados. Na parte de trás do veículo, eu observava Will disparar ininterruptamente contra a multidão que começava a se tornar ameaçadora.
Eram dezenas de criaturas que tentavam subir no veículo, se apoiando nas laterais da caçamba, cuspindo sangue nas janelas. Emitiam sons incompreensíveis que exprimiam algo entre a raiva e a dor. Era um som grave e agudo ao mesmo tempo, assustadoramente constante. Era como se aquelas vozes mortas pudessem penetrar nas nossas mentes. Torrada, não diferente dos demais, estava completamente desorientado. E para piorar, não tinha nenhum mapa da cidade.
-Eu não sei onde estamos, senhor! Eu não sei! - Ele tentava gritar, com a voz abafada pelos poderosos tiros da metralhadora que Will manuseava com habilidade.
Tomado pela vontade de sobreviver, eu esquecera completamente do meu plano, e agora me focava simplesmente em remover aqueles pares de mãos fétidas que tentavam nos alcançar de qualquer jeito.
O suor escorria pela minha testa enquanto eu atacava com todo o vigor, chutando e socando aqueles desgraçados sedentos por sangue. Pela parte do capô, um desmorto começou a escalar o veículo. Subiu pelo para-brisas derramando sangue de suas feridas e agarrou o meu braço esquerdo. No mesmo instante, pude ver Will tentando sair da caçamba para o teto do carro. Nós estávamos completamente ilhados no meio dos infectados, que agora simplesmente mergulhavam em nossa direção sem cerimônia.
Eu assisti, em poucos segundos, a tranquilidade se transformar em total desespero e preocupação quando Will abandonou o calibre cinquenta. Dei uma cotovelada no morto que me segurava avidamente, que arranhou um belo trecho do meu antebraço. Não hesitei em sacar a faca. Discretamente, puxei a lâmina por entre as vestes e encravei-a na têmpora do zumbi em um só movimento brutal. No momento seguinte guardei a faca na cintura, presa à calça. Ninguém havia notado o meu movimento. Já sem vida, o corpo do infectado deslizou pelo carro e caiu entre a multidão faminta, que logo começou a se alimentar dele.
Porém os poucos distraídos não amenizaram o perigo. Will já estava em cima do teto do jipe, tentando em vão chutar os escaladores canibais. Enquanto eles investiam contra nós, tudo pareceu ficar em câmera lenta. Mortos-vivos se batiam contra o para-brisa e as janelas, que já começavam a trincar. Ao longe, eu pudia ver mais deles se aproximando. No ápice da situação, eu quase conseguia ouvir meus próprios batimentos cardíacos, misturados à cena que se desenrolava.
-Precisamos abandonar o veículo! - Gritou Torrada da parte da frente.
Mantive a respiração calma e regular enquanto assistia tudo acontecer. Relativamente relaxado, tive a oportunidade de olhar em volta com o cérebro ainda um pouco funcional. Zumbis... malditos zumbis... Eles ameaçavam a minha sobrevivência agora.
- Cinco horas! Cinco horas! Corram para o veículo ao meu sinal! -
Olhei na direção indicada pelo soldado e me deparei com uma dúzia de zumbis que nos separavam de um grande objeto preto. De fato, a aproximadamente dez metros de onde estávamos existia uma minivan abandonada. Era pra ela que deveríamos ir.
-Vai, vai, vai! - Gritou Garoto enquanto saía pela porta do motorista. Seus homens fizeram o mesmo e então lançaram-se em uma corrida desenfreada até o outro ponto supostamente seguro. Distraídos pela movimentação repentina, os zumbis nem sequer viram quando saltei para o outro lado do carro e fui na direção do que parecia ser uma padaria abandonada.
Corri com toda a minha velocidade, e fui acompanhado por dois ou três desmortos perdidos. Quebrei o vidro em uma só pancada, quando me joguei contra a vitrine que mostrava alguns bolos e outras guloseimas. Como resultado, caí dentro do estabelecimento completamente coberto de glacê e chocolate.
Entretanto, como era de se esperar, os infectados não desanimaram e adentraram o local fechado atrás de mim. O primeiro tropeçou em alguma coisa que estava no chão e caiu logo na entrada. Enquanto eu corria, só consegui perceber um deles me seguindo.
Pela primeira vez, dei uma boa olhada no meu perseguidor. Era um idoso, um pouco acima do peso. Ele não tinha mordidas visíveis no corpo, apenas uma grande quantidade de sangue seco em sua camiseta branca encardida. Com seus dentes amarelados, o homem rugia enquanto atacava.
Passei pelas prateleiras de comida e corri para a bancada. Era de lá que mulheres e homens costumavam atender seus clientes, entregando bandejas de pão fresco e crocante. Porém as poucas massas que restaram nas cestas de madeira foram alguns pães mofados.
Pulei sobre o balcão de atendimento derrubando alguns poucos objetos que estavam por ali. Olhei para trás a tempo de ver o infeliz se arremessar de frente por cima do balcão. Dei um largo passo para a direita e observei deliciado o idoso se espatifar contra a parede. Acho que naquele breve momento um sorriso surgiu no meu rosto.
Como todos os momentos bons, acabou rápido. Ouvi alguns grunhidos vindos da entrada e encontrei o zumbi que havia se atrasado agora mancando em minha direção. Seja lá por qual razão, ele parecia estar com o pescoço deslocado. Era uma mulher, ruiva. Não deu para ver muitos detalhes, mas pelo que parecia, ela também queria me matar. Novidade.
-Meu Deus! - Antes de poder reagir, uma mão me agarrou o tornozelo e conseguiu me derrubar, puxando com uma força impressionante. Para a minha surpresa, não era o idoso. Da porta da cozinha rastejava um corpo sem uma das pernas que agora me prendia ao chão. Ouvi os passos desajeitados da mulher se aproximando rapidamente, enquanto tentava me livrar do agressor.
Segurei sua cabeça longe da minha perna o máximo que pude, mas ele era um sujeito determinado e eu estava começando a me cansar. Quando tudo parecia não poder piorar, o idoso infectado levantou-se e saltou furioso em minha direção.
Coloquei meus braços na frente do corpo para segurar o homem, soltando um suspiro de esforço. Senti o hálito quente do desmorto rastejante em minha coxa. O idoso tentava morder o meu rosto, enquanto gotas de sangue pingavam pela minha face. A mulher tinha encontrado algumas dificuldades para passar pela bancada, mas estava agora escalando pela barreira lenta e progressivamente.
-Aah! - Com um grito de fúria, chutei a cabeça do rastejante e comecei a me desvincular do agressor que tentava me manter preso ao chão. Rastejei de costas por meio metro, para conseguir tempo contra o rastejante e então rolei, jogando o idoso ao chão. Já agachado, não hesitei em dar um murro no meio da cara do velhote. Peguei um rolo de massa do chão e ataquei diversas vezes a cabeça dele, enquanto eu gritava de raiva. Eu sentia o impacto de cada golpe se deslocar pelo meu braço, tremendo os ossos. O sangue respingava na minha roupa e no meu rosto, mas eu não ligava. Fazia tempo que essas coisas eram normais. Continuei batendo até que o crânio dele amassasse e o homem parasse de se mexer. Ainda segurando o rolo de madeira, respirei profundamente enquanto olhava para o outro infectado, que rastejava sem uma perna em minha direção.
-Agora o seu amigo não levanta tão cedo. - Disse para o aleijado. Os grunhidos da mulher, que pareciam estar mais perto, me chamaram a atenção.
Olhei para a minha direita a tempo de ver o perigo vindo. Vi o corpo da mulher deslizando sobre o balcão enquanto caía para o meu lado. Nesse momento, pude ouvir passos apressados de pelo menos mais duas pessoas entrando na padaria. Era mais do que a hora de eu sair dali.
Saltei sobre os corpos que me separavam da entrada da cozinha e então fechei a porta. Ou pelo menos tentei. Quando a entrada estava quase bloqueada, a mulher se jogou contra a porta de metal gritando de forma aguda, enquanto eu empurrava seu braço contra a parede. Olhei para o interior da cozinha e notei que outro desmorto se aproximava por dentro. Era um homem gordo e mal cuidado, que caminhava vagarosamente em minha direção com um avental vermelho de sangue. Pelo que parecia, o infeliz carregava uma faca também. Levantei o rolo de massa já ensanguentado e girei-o no ar, acertando um belo golpe na têmpora do agressor, enquanto empurrava a porta com as costas. Estava relativamente fácil segurar a passagem, até que senti uma incrivelmente forte pancada do outro lado que me afastou automaticamente da entrada. A mulher infectada caiu de frente no chão da cozinha, com um buraco imenso na parte de trás da cabeça. Um círculo de sangue se formou em volta de seu corpo inanimado.

-Tentando fugir, moleque? - Perguntou uma voz familiar.
Torrada estava de pé do lado de fora, segurando um pedaço de ferro que usou como arma. Um grande sorriso estampava o seu rosto.
-Você pegou o outro também? - Perguntei, me aproximando do soldado.

-Bom, na verdade quando eu cheguei o outro já tinha sido estraçalhado. Quer dizer, algum fugitivo maníaco acabou com a cabeça dele. - Respondeu ele, rindo.
-Não o cara velho, to falando do...
-Aaah! - Só consegui perceber o que aconteceu quando Torrada ergueu a barra de ferro e começou a agitá-la na direção das próprias pernas. O rastejante tinha pegado ele. Ele não parava de gritar enquanto era mordido por toda a panturrilha.
-Socorro!
Corri em sua direção e agarrei o infectado rastejante por trás, separando ele do Torrada. O morto se debatia em meus braços, com a fúria de um animal selvagem. Coloquei-o no chão e bati com toda a força na testa do desgraçado, que silenciou na mesma hora.
Torrada se arrastou até a parede, sentado no chão. Ele ainda emitia alguns sons de dor quando Garoto apareceu correndo por trás de uma das prateleiras. Ele se adiantou na direção da bancada, soltando no meio do caminho o cabo de vassoura que trazia.

-O que aconteceu? - Perguntou após saltar sobre o balcão. Eu e Torrada apenas olhávamos para ele, sem saber o que dizer. A perna do homem estava completamente inutilizada. Algumas fibras musculares se esticavam para fora do membro e era possível ver o osso pelo ferimento aberto.
-Não liga pra isso... A gente precisa voltar pra base. - Disse Torrada, pausadamente. A dor e o ferimento o impediriam de se levantar.
-Deixa que eu te ajudo. - Disse Garoto, passando o braço do amigo por cima do ombro, dando-lhe algum apoio para caminhar. -Matheus, vai na frente. Fala pro Will preparar o carro.

Saí da padaria correndo e encontrei um furgão da CCAB em frente a padaria. Por um momento fiquei paralisado, sem saber o que fazer. Avistei ao longe o outro soldado, que parecia ter roubado o veículo. Will se aproximava pelo outro lado da rua, correndo com toda a velocidade.
-Não temos muito tempo! - Ele gritou enquanto entrava pela porta do motorista. Ouvi-o ligar o carro antes mesmo que eu precisasse pedir.
-Cadê o blindado?- Perguntei.
-Ta no inferno! Cadê o pessoal? Precisamos ir agora!
-Por que a pressa? A multidão de infectados já... - Interrompi minha fala quando ouvi berros confusos vindos da esquina. O chão parecia vibrar, suavemente. De repente, uma enorme massa de zumbis apareceu no final da rua e corria em nossa direção, fazendo exatamente o caminho de Will. Pareciam ser ainda mais do que os que nos cercaram há alguns minutos.
Torrada saiu da loja mancando, carregado pelo líder. A horda de canibais estaria em cima de nós em no máximo cinco segundos. Os dois entraram na parte de trás do carro, enquanto eu entrava pela porta do carona. Will cantou pneus a tempo de ouvirmos as primeiras pancadas contra a lataria do veículo. Estávamos salvos.
[…]

-Como você tá?- Perguntou Will, que estava na parte de trás, cuidando do ferido.
-Já tive dias melhores. - Respondeu Torrada com seu sempre presente sorriso. Ele estava pálido, com uma aparência muito ruim, mas seu humor nunca parecia piorar.
Nós estávamos abastecendo o veículo num posto dos arredores, naquele momento já estávamos saindo de Mangaratiba, a caminho da base. Garoto tinha pendurada em seu pescoço uma submetralhadora MP5, que fui encontrada dentro do furgão pela equipe. Torrada estava deitado numa maca na parte de trás da van, ganhando algumas doses de endorfina. Após entrar no carro, Garoto fechou a porta atrás de si e acelerou, rumo a estrada. Após prender um torniquete na coxa do colega, Will preparou uma dose de sedativo e esterilizava a seringa no fogo de seu isqueiro.

-Vamos parar em alguma farmácia por aí, não dá para ficar assim. - Disse Garoto, enquanto dirigia. -Desse jeito você vai acabar pegando uma infecção. -
-Não me levem a mal, mas ele já está infectado. - Eu disse, compartilhando o meu pensamento pela primeira vez. Por um momento, o veículo mergulhou em um profundo silêncio. Todos se entreolharam, pensando no que eu falei. - É verdade! Ele foi mordido! - Repeti.
-Não é possível. Ele foi mordido sim, mas isso aconteceu há pouco tempo, se conseguirmos esterilizar o local ele vai ficar bem! - Respondeu Garoto.

-Ele tá certo, chefe... - Torrada falava lentamente. - A gente já viu isso acontecer antes. Com o Santos.
-Não! O Santos era um caso perdido! Ele merecia morrer. Você não, você ainda é jovem, Guilherme. - Falava Garoto, com a respiração pesada. Por um instante, achei que ele fosse chorar. Mas essa sensação logo passou quando ele virou para frente e fixou o olhar na estrada.

-Senhor... O vírus não escolhe quem infectar. - Disse Torrada, com a voz já rouca. No momento seguinte, fechou os olhos e descansou a cabeça na maca.
-O sedativo fez efeito, senhor. Agora que a pressão abaixou ele vai perder pouco sangue. - Disse Will. -E então, vamos ou não à farmácia?
-Vamos, é claro. Eu não posso perder o Guilherme também. Já tivemos muitas baixas naquele cerco em Nova York.
-Nova York? O que aconteceu lá? - Perguntei curioso.
-História antiga, rapaz. Nem se importe em saber. Mas o Brooks estava envolvido também. - Disse Garoto.
-É, parece que sempre que da merda em algum lugar o William tá por perto. - Comentou Will, num tom irônico. Mantive o meu silêncio por mais alguns momentos. Se eles não quisessem que eu soubesse, talvez eu realmente não devesse saber.

-O que é aquilo, senhor? - Perguntou Will enquanto olhava pela pequena janela da parte de trás. Ao longe, uma camionete rural andava paralelamente ao nosso veículo. Tinha pelo menos três pessoas na garupa.
-Sobreviventes! Vamos lá ajudá-los! - Exclamei.
  • Will, prepare a calibre cinquenta. Parece que vamos ter um pequeno combate aqui.
  • Sim, senhor!
Assisti Will preparar a arma enquanto Garoto acelerava com o carro, afastando-se do outro veículo.
-O que tá havendo?
-É a Fortaleza Norte! Um grupo de resistentes rebeldes fortemente armados que saqueiam outros veículos e atacam patrulhas militares.
-E por quê?!
-Isso não vem ao caso, agora vai pra parte de trás!

Nesse momento, disparos de armas automáticas ricochetearam contra a carroceria de nosso veículo. Pulei para a parte de trás do furgão, junto de Torrada.
-Responder fogo! Responder fogo! - Gritou Garoto. O som da metralhadora cortou todos os outros disparos e mergulhou o veículo no silêncio profundo. Em poucos segundos, estávamos travando um conflito armado em alta velocidade.
-Eu... Vou... Ajudar... - Olhei para o lado e encontrei Torrada se levantando da maca, com o olhar perdido. Ele passou para a parte da frente com algumas dificuldades e sentou-se no banco do carona antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
-Volta pra maca, Guilherme! - Berrou Garoto, com ar de autoridade.
-Eu tenho que ajudar, senhor. - Respondeu o soldado, que tirou a MP5 do peito do líder. Girou a manivela da janela e abriu uma fresta no vidro.
-Respondendo fogo! - Gritou Guilherme, enquanto executava alguns disparos contra os rebeldes. A partir do momento que ele apertou o gatilho, eu vi dois homens caindo no carro inimigo. Torrada era um pouco melhor do que eu pensei.

Antes a movimentação era lenta, mas agora a camionete investia contra nós fisicamente, jogando seu carro contra o nosso. Enquanto isso, os tiros não cessavam. Eram disparos de cá contra disparos de lá. Em determinado ponto do tiroteio, uma rajada inimiga penetrou a carroceria. Três tiros. Foram três balas letais que adentraram a cabine. Duas delas em Torrada.
No instante seguinte, Will acertou uma bala incendiária no tanque de combustível do outro veículo, que virou uma bola de chamas em alta velocidade. Os gritos dos inimigos ainda eram ouvidos enquanto tomávamos distância.
-Guilherme! Guilherme! Responde! - Gritava Garoto, enquanto batia em seu soldado. Um jato de sangue havia espirrado pelo interior da parte da frente do veículo. O próprio Garoto estava banhado em um vermelho vivo, que escorria pelo seu uniforme. Torrada não respondia, não respirava. Sua cabeça descansava encostada na janela do lado direito.
Will desceu da arma e viu o que tinha acontecido. Lançou um breve olhar em minha direção e então sentou-se na maca. Apoiou o rosto nas mãos e ficou com a cabeça abaixado por um bom tempo.
Garoto saiu do carro e abriu a porta do carona. Torrada caiu em seus braços, sem reação. Garoto soltava pequenos suspiros e respirava irregularmente. De forma inesperada, ele simplesmente caiu ajoelhado ao chão, ainda com o colega em seus braços. Ele estava lacrimejando, mas não ousava chorar. Garoto olhou para o céu, com um misto de raiva e tristeza.
Will havia ido até o carro inimigo que ainda ardia em chamas e começava a recolher as armas deles. O líder da equipe estava inconformado com a morte do navegador.

-Aaah! - Gritou com toda a voz que tinha, olhando as nuvens que flutuavam com indiferença. Em seguida Garoto abaixou a cabeça e deixou que as lágrimas caíssem. O homem gemia e suspirava de dor. Eu não sabia o que dizer, ou o que fazer. De certa forma, novamente fui eu quem gerou aquilo.
A cena era triste e a melancolia se prolongou por mais alguns minutos. Will começava a retornar com as armas quando o líder se levantou de perto do colega caído.

-Guilherme? - Garoto tinha o olhar incrédulo. Também fiquei surpreso com o que vi. Torrada abria os olhos, aos poucos. Suavemente, ele levantou a cabeça e logo deixou caí-la novamente.
-Ele está vivo! - Gritou Garoto. -Guilherme, venha cá e... - Garoto interrompeu sua frase quando seu colega saltou sobre ele, tentando morder-lhe o braço.
-Sai daí, chefe! - Gritou Will, enquanto destravava uma AK-47 que encontrou no carro destruído. Garoto se afastou rapidamente do homem caído, enquanto adentrava no carro.
-Cessar fogo! - Gritou para Will. -Vamos embora! -
Dito isso, entramos todos no carro. Torrada se levantou e correu na direção do veículo, gritando furiosamente. Garoto ainda estava com o rosto molhado de lágrimas quando ligou o veículo. Deu uma longa olhada no seu ex-navegador, que agora surrava a carroceria com os punhos, tentando entrar de qualquer forma. Com um breve aceno negativo de cabeça, Garoto acelerou e tirou-nos de lá.


-Você não vale nem uma bala, seu miserável! - Gritava Garoto, apontando para mim a chave inglesa em sua mão. Eu sentia novamente o concreto quente em minhas costas, enquanto tentava esquecer a sensação desconfortável de ser mais uma vez o culpado.
-E então, já tem o motivo? -
-Talvez... - Comecei a falar. - Talvez você não me mate porque tudo o que fiz foi para tentar sair daquela base militar. Ou você acha que eu não sei o que eles fazem com as pessoas lá?
-Tente novamente, esse motivo não me convenceu. - Falou Garoto enquanto se aproximava.
-Senhor! - Interrompeu Will. - Se o matarmos agora, Brooks não vai gostar. -
Essas breves palavras foram o suficiente para fazer Garoto parar e pensar. Talvez Will estivesse certo, talvez o menino merecesse viver um pouco mais.
-Quer saber? - Perguntou Garoto, guardando a chave inglesa. - Você vai voltar para a base hoje. O William vai gostar de saber que você nos mandou numa missão falsa.